segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Verdade e a Filosofia

Trechos de “Convite à Filosofia”, unidade 3, edição online

A verdade como um valor

A Filosofia não é um conjunto de idéias e de sistemas que possamos apreender automaticamente, não é um passeio turístico pelas paisagens intelectuais, mas uma decisão ou deliberação orientada por um valor: a verdade. É o desejo do verdadeiro que move a Filosofia e suscita filosofias.

Afirmar que a verdade é um valor significa: o verdadeiro confere às coisas, aos

seres humanos, ao mundo um sentido que não teriam se fossem considerados

indiferentes à verdade e à falsidade.

Ignorância, incerteza e insegurança

Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que sequer

a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos

que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as

crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como

eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas,

nenhum motivo para desconfiar delas e, conseqüentemente, achamos que

sabemos tudo o que há para saber.

A incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que

somos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da

realidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante muito tempo,

nos serviu como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o que

pensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas,

pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos

tomados pela insegurança.

Outras vezes, estamos confiantes e seguros e, de repente, vemos ou ouvimos

alguma coisa que nos enche de espanto e de admiração, não sabemos o que

pensar ou o que fazer com a novidade do que vimos ou ouvimos porque as

crenças, opiniões e idéias que possuímos não dão conta do novo. O espanto e a

admiração, assim como antes a dúvida e a perplexidade, nos fazem querer saber o

que não sabemos, nos fazem querer sair do estado de insegurança ou de

encantamento, nos fazem perceber nossa ignorância e criam o desejo de superar a incerteza.

Quando isso acontece, estamos na disposição de espírito chamada busca da

verdade.

O desejo da verdade aparece muito cedo nos seres humanos como desejo de

confiar nas coisas e nas pessoas, isto é, de acreditar que as coisas são exatamente

tais como as percebemos e o que as pessoas nos dizem é digno de confiança e

crédito. Ao mesmo tempo, nossa vida cotidiana é feita de pequenas e grandes

decepções e, por isso, desde cedo, vemos as crianças perguntarem aos adultos se

tal ou qual coisa “é de verdade ou é de mentira”.

Quando uma criança ouve uma história, inventa uma brincadeira ou um

brinquedo, quando joga, vê um filme ou uma peça teatral, está sempre atenta para

saber se “é de verdade ou de mentira”, está sempre atenta para a diferença entre o

“de mentira” e a mentira propriamente dita, isto é, para a diferença entre brincar,

jogar, fingir e faltar à confiança.

Quando uma criança brinca, joga e finge, está criando um outro mundo, mais rico

e mais belo, mais cheio de possibilidades e invenções do que o mundo onde, de

fato, vive. Mas sabe, mesmo que não formule explicitamente tal saber, que há

uma diferença entre imaginação e percepção, ainda que, no caso infantil, essa

diferença seja muito tênue, muito leve, quase imperceptível – tanto assim, que a

criança acredita em mundos e seres maravilhosos como parte do mundo real de

sua vida.

Por isso mesmo, a criança é muito sensível à mentira dos adultos, pois a mentira

é diferente do “de mentira”, isto é, a mentira é diferente da imaginação e a

criança se sente ferida, magoada, angustiada quando o adulto lhe diz uma

mentira, porque, ao fazê-lo, quebra a relação de confiança e a segurança infantis.

Quando crianças, estamos sujeitos a duas decepções: a de que os seres, as coisas,

os mundos maravilhosos não existem “de verdade” e a de que os adultos podem

dizer-nos falsidades e nos enganar. Essa dupla decepção pode acarretar dois

resultados opostos: ou a criança se recusa a sair do mundo imaginário e sofre

com a realidade como alguma coisa ruim e hostil a ela; ou, dolorosamente, aceita

a distinção, mas também se torna muito atenta e desconfiada diante da palavra

dos adultos. Nesse segundo caso, a criança também se coloca na disposição da

busca da verdade.

Dificuldades para a busca da verdade

Em nossa sociedade, é muito difícil despertar nas pessoas o desejo de buscar a

verdade. Pode parecer paradoxal que assim seja, pois parecemos viver numa

sociedade que acredita nas ciências, que luta por escolas, que recebe durante 24

horas diárias informações vindas de jornais, rádios e televisões, que possui

editoras, livrarias, bibliotecas, museus, salas de cinema e de teatro, vídeos,

fotografias e computadores.

Ora, é justamente essa enorme quantidade de veículos e formas de informação

que acaba tornando tão difícil a busca da verdade, pois todo mundo acredita que

está recebendo, de modos variados e diferentes, informações científicas,

filosóficas, políticas, artísticas e que tais informações são verdadeiras, sobretudo

porque tal quantidade informativa ultrapassa a experiência vivida pelas pessoas,

que, por isso, não têm meios para avaliar o que recebem.

Bastaria, no entanto, que uma mesma pessoa, durante uma semana, lesse de

manhã quatro jornais diferentes e ouvisse três noticiários de rádio diferentes; à

tarde, freqüentasse duas escolas diferentes, onde os mesmos cursos estariam

sendo ministrados; e, à noite, visse os noticiários de quatro canais diferentes de

televisão, para que, comparando todas as informações recebidas, descobrisse que

elas “não batem” umas com as outras, que há vários “mundos” e várias

“sociedades” diferentes, dependendo da fonte de informação.

Uma experiência como essa criaria perplexidade, dúvida e incerteza. Mas as

pessoas não fazem ou não podem fazer tal experiência e por isso não percebem

que, em lugar de receber informações, estão sendo desinformadas. E, sobretudo,

como há outras pessoas (o jornalista, o radialista, o professor, o médico, o

policial, o repórter) dizendo a elas o que devem saber, o que podem saber, o que

podem e devem fazer ou sentir, confiando na palavra desses “emissores de

mensagens”, as pessoas se sentem seguras e confiantes, e não há incerteza porque

há ignorância.

Uma outra dificuldade para fazer surgir o desejo da busca da verdade, em nossa

sociedade, vem da propaganda.

A propaganda trata todas as pessoas – crianças, jovens, adultos, idosos – como

crianças extremamente ingênuas e crédulas. O mundo é sempre um mundo “de

faz-de-conta”: nele a margarina fresca faz a família bonita, alegre, unida e feliz; o

automóvel faz o homem confiante, inteligente, belo, sedutor, bem-sucedido nos

negócios, cheio de namoradas lindas; o desodorante faz a moça bonita, atraente,

bem empregada, bem vestida, com um belo apartamento e lindos namorados; o

cigarro leva as pessoas para belíssimas paisagens exóticas, cheias de aventura e

de negócios coroados de sucesso que terminam com lindos jantares à luz de

velas.

A propaganda nunca vende um produto dizendo o que ele é e para que serve. Ela

vende o produto rodeando-o de magias, belezas, dando-lhe qualidades que são de

outras coisas (a criança saudável, o jovem bonito, o adulto inteligente, o idoso

feliz, a casa agradável, etc.), produzindo um eterno “faz-de-conta”.

Uma outra dificuldade para o desejo da busca da verdade vem da atitude dos

políticos nos quais as pessoas confiam, ouvindo seus programas, suas propostas,

seus projetos enfim, dando-lhes o voto e vendo-se, depois, ludibriadas, não só

porque não são cumpridas as promessas, mas também porque há corrupção, mau

uso do dinheiro público, crescimento das desigualdades e das injustiças, da

miséria e da violência.

Em vista disso, a tendência das pessoas é julgar que é impossível a verdade na

política, passando a desconfiar do valor e da necessidade da democracia e

aceitando “vender” seu voto por alguma vantagem imediata e pessoal, ou caem

na descrença e no ceticismo.

No entanto, essas dificuldades podem ter o efeito oposto, isto é, suscitar em

muitas pessoas dúvidas, incertezas, desconfianças e desilusões que as façam

desejar conhecer a realidade, a sociedade, a ciência, as artes, a política. Muitos

começam a não aceitar o que lhes é dito. Muitos começam a não acreditar no que

lhes é mostrado. E, como Sócrates em Atenas, começam a fazer perguntas, a

indagar sobre fatos e pessoas, coisas e situações, a exigir explicações, a exigir

liberdade de pensamento e de conhecimento.

Para essas pessoas, surge o desejo e a necessidade da busca da verdade. Essa

busca nasce não só da dúvida e da incerteza, nasce também da ação deliberada

contra os preconceitos, contra as idéias e as opiniões estabelecidas, contra

crenças que paralisam a capacidade de pensar e de agir livremente.

Podemos, dessa maneira, distinguir dois tipos de busca da verdade. O primeiro é

o que nasce da decepção, da incerteza e da insegurança e, por si mesmo, exige

que saiamos de tal situação readquirindo certezas. O segundo é o que nasce da

deliberação ou decisão de não aceitar as certezas e crenças estabelecidas, de ir além delas e de encontrar explicações, interpretações e significados para a

realidade que nos cerca. Esse segundo tipo é a busca da verdade na atitude

filosófica.

Podemos oferecer dois exemplos célebres dessa busca filosófica. Já falamos do

primeiro: Sócrates andando pelas ruas e praças de Atenas indagando aos

atenienses o que eram as coisas e idéias em que acreditavam. O segundo exemplo

é o do filósofo Descartes.

Descartes começa sua obra filosófica fazendo um balanço de tudo o que sabia: o

que lhe fora ensinado pelos preceptores e professores, pelos livros, pelas viagens,

pelo convívio com outras pessoas. Ao final, conclui que tudo quanto aprendera,

tudo quanto sabia e tudo quanto conhecera pela experiência era duvidoso e

incerto. Decide, então, não aceitar nenhum desses conhecimentos, a menos que

pudesse provar racionalmente que eram certos e dignos de confiança. Para isso,

submete todos os conhecimentos existentes em sua época e os seus próprios a

um exame crítico conhecido como dúvida metódica, declarando que só aceitará

um conhecimento, uma idéia, um fato ou uma opinião se, passados pelo crivo da

dúvida, revelarem-se indubitáveis para o pensamento puro.

Dogmatismo e busca da verdade

Quando prestamos atenção em Sócrates ou Descartes, notamos que ambos, por

motivos diferentes e usando procedimentos diferentes, fazem uma mesma coisa,

isto é, desconfiam das opiniões e crenças estabelecidas em suas sociedades, mas

também desconfiam das suas próprias idéias e opiniões. Do que desconfiam eles,

afinal? Desconfiam do dogmatismo.

O que é dogmatismo?

Dogmatismo é uma atitude muito natural e muito espontânea que temos, desde

muito crianças. É nossa crença de que o mundo existe e que é exatamente tal

como o percebemos. Temos essa crença porque somos seres práticos, isto é, nos

relacionamos com a realidade como um conjunto de coisas, fatos e pessoas que

são úteis ou inúteis para nossa sobrevivência.

Os seres humanos, porque são seres culturais, trabalham. O trabalho é uma ação

pela qual modificamos as coisas e a realidade de modo a conseguir nossa

preservação na existência. Constroem casas, fabricam vestuário e utensílios,

produzem objetos técnicos e de consumo, inventam meios de transporte, de

comunicação e de informação. Através da prática ou do trabalho e da técnica, os

seres humanos organizam-se social e politicamente, criam instituições sociais

(família, escola, agricultura, comércio, indústria, relações entre grupos e classes,

etc.) e instituições políticas (o Estado, o poder executivo, legislativo e judiciário,

as forças militares profissionais, os tribunais e as leis).

Essas práticas só são possíveis porque acreditamos que o mundo existe, que é tal

como o percebemos e tal como nos ensinaram que ele é, que pode ser modificado

ou conservado por nós, que é explicado pelas religiões e pelas ciências, que é

representado pelas artes. Acreditamos que os outros seres humanos também são

racionais, pois, graças à linguagem, trocamos idéias e opiniões, pensamos de

modo muito parecido e a escola e os meios de comunicação garantem a

manutenção dessas semelhanças.

Na atitude dogmática, tomamos o mundo como já dado, já feito, já pensado, já

transformado. A realidade natural, social, política e cultural forma uma espécie

de moldura de um quadro em cujo interior nos instalamos e onde existimos.

Mesmo quando acontece algo excepcional ou extraordinário (uma catástrofe, o

aparecimento de um objeto inteiramente novo e desconhecido), nossa tendência

natural e dogmática é a de reduzir o excepcional e o extraordinário aos padrões do que já conhecemos e já sabemos. Mesmo quando descobrimos que alguma

coisa é diferente do que havíamos suposto, essa descoberta não abala nossa

crença e nossa confiança na realidade, nem nossa familiaridade com ela.

O mundo é como a novela de televisão: muita coisa acontece, mas, afinal, nada

acontece, pois quando a novela termina, os bons foram recompensados, os maus

foram punidos, os pobres bons ficaram ricos, os ricos maus ficaram pobres, a

mocinha casou com o mocinho certo, a família boa se refez e a família má se

desfez. Em outras palavras, os acontecimentos da novela servem apenas para

confirmar e reforçar o que já sabíamos e o que já esperávamos. Tudo se mantém

numa atmosfera ou num clima de familiaridade, de segurança e sossego.

Na atitude dogmática ou natural, aceitamos sem nenhum problema que há uma

realidade exterior a nós e que, embora externa e diferente de nós, pode ser

conhecida e tecnicamente transformada por nós. Achamos que o espaço existe,

que nele as coisas estão como num receptáculo; achamos que o tempo também

existe e que nele as coisas e nós próprios estamos submetidos à sucessão dos

instantes.

...

Tanto os antigos quanto os modernos afirmam que:

1. a verdade é conhecida por evidência (a evidência pode ser obtida por intuição,

dedução ou indução);

2. a verdade se exprime no juízo, onde a idéia está em conformidade com o ser

das coisas ou com os fatos;

3. o erro, o falso e a mentira se alojam no juízo (quando afirmamos de uma coisa

algo que não pertence à sua essência ou natureza, ou quando lhe negamos algo

que pertence necessariamente à sua essência ou natureza);

4. as causas do erro e do falso são as opiniões preconcebidas, os hábitos, os

enganos da percepção e da memória;

5. a causa do falso e da mentira, para os modernos, também se encontra na

vontade, que é mais poderosa do que o intelecto ou o pensamento, e precisa ser

controlada por ele;

6. uma verdade, por referir-se à essência das coisas ou dos seres, é sempre

universal e necessária e distingue-se da aparência, pois esta é sempre particular,

individual, instável e mutável;

7. o pensamento se submete a uma única autoridade: a dele própria com

capacidade para o verdadeiro.

sábado, 3 de abril de 2010

Platão e a "Alegoria da Caverna"

O filósofo Platão (século V a. C.) em sua obra “A República” dedica-se a pensar numa cidade ideal. O diálogo entre Sócrates e seus discípulos inicia-se a partir da pergunta “O que é a Justiça?” e chega a outra questão que permite responder à primeira: o que seria uma cidade justa? Sócrates discute então como seria a cidade justa em todos os seus detalhes. Pelo tema da cidade chega-se a todos os temas da filosofia: metafísica, teologia, ética, psicologia, pedagogia, política e teoria da arte.

A alegoria ou mito da caverna encontra-se no livro VII, que trata da diferença entre senso comum e realidade e sobre como atingir, através de uma busca, o Bem e a Verdade. Temos um prisioneiro da caverna que sai de sua condição de escravo (ou ignorante) até tornar-se um sábio. Ele representa o filósofo e tem o dever educativo e político de retornar à caverna que havia deixado para mostrar a seus antigos companheiros o caminho da verdade.

Platão considera que existem dois mundos: o sensível e o inteligível. No mundo sensível existe a mudança, a aparência, o devir, os contrários. Já no mundo inteligível temos a identidade, a permanência, a verdade e o conhecimento obtido pelo intelecto puro sem a interferência dos sentidos e das opiniões. O mundo sensível é o das coisas e do não-Ser, ou seja, das sombras, das cópias deformadas ou imperfeitas do mundo das ideias. O Ser, as essências ou ideias verdadeiras estão no mundo inteligível. O sensível é o outro do Ser, diferente e inferior, enganador e ilusório, causa de erros. É um falso Ser ou pseudo-Ser.

Assim, o Ser pode é entendido em dois sentidos: forte e fraco. O forte é a realidade ou existência, como em “o homem é (existe)”. O fraco é o verbo de ligação, apenas associa o sujeito ao seu predicado: “o homem é mortal”. No sentido forte temos as ideias ou formas imateriais, o verdadeiro e o inteligível, o real: o bem, o belo, o justo, o amor. No fraco, temos o Ser real: aquele homem, aquela bela mulher, aquele amor em especial.

A ideia é uma essência, o conjunto de qualidades que fazem com que ela seja o que é. A essência é idêntica a si mesma, eterna e imutável.

A alegoria da caverna nos mostra o que faz o filósofo: ele atinge o mundo das ideias, pelo método da dúvida, usando a sua racionalidade. Sua função é levar suas descobertas aos homens comuns, mas estes não o entendem e o repudiam. A filosofia nos conduz, pelo diálogo, das opiniões sensíveis (sensações, percepções, imagens e opiniões) à contemplação intelectual do ser das coisas, à ideia verdadeira, que existe em si mesma no mundo inteligível.

Conversa entre dois camundongos adolescentes


Niquel Nausea, Fernando Gonzales.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A Alegoria da Caverna

Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura
da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao
longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.

Glauco: Entendo.

Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo o tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que
desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.

Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!

Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da caverna à sua frente?

Glauco: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?

Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos que desfilam?

Glauco: É claro.

Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais?

Glauco: Evidentemente.

Sócrates: E se, além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?

Glauco: Sim, por Zeus.

Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.

Glauco: Não poderia ser de outra forma.

Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder
se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo melhor? O que ele responderia se lhe
designassem cada um dos objetos que desfilam, obrigando-o com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.

Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?

Glauco: Sem dúvida alguma.

Sócrates: E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.

Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.

Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele
poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol.

Glauco: Sem dúvida.

Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é.

Glauco: Certamente.

Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.

Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?

Glauco: Claro que sim.

Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com
exatidão daquelas que precedem certas outras ou que lhes sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um lavrador” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver
como se vive lá?

Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.
Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?

Glauco: Naturalmente.

Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.

Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.


Referência:
A Alegoria da caverna: A Republica, de Platão 514a-517c tradução de Lucy Magalhães.
In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos Pré-Socráticos
a Wittgenstein. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2000.


Atividade proposta

Depois de ler a "Alegoria da Caverna", elabore uma historia em quadrinhos que represente toda a alegoria ou, se preferir, elabore apenas um roteiro a essa historia descrevendo as cenas, os dialogos e tudo aquilo que for necessario.
Para entregar.

O texto pode ser obtido em pdf.

terça-feira, 30 de março de 2010

nota de jornal 2

A partir da leitura da nota de jornal 1, post anterior, o psicanalista Contardo Caligaris fez uma reflexão também publicada na Folha de S. Paulo de 25/03/2010:

Injeções de Obediência

NA SEMANA PASSADA, em Piracicaba (SP), Josiane Ferraz, 31 anos, acorrentou o filho à cama. Foi o jeito que ela encontrou para conter seu menino, de 13 anos, usuário de crack.

Sem grande esforço de memória e de pesquisa, lembro-me de que, faz um ano, em Cuiabá (MT), Neves e Cleuza de Souza acorrentaram seu filho de 13 anos, viciado, violento e incontrolável. Dois ou três anos atrás, um caso análogo aconteceu em Porto Alegre (RS), com um menino de 11 anos, também usuário de crack. Nos três casos, os pais procuraram ajuda: consultaram o Conselho Tutelar de sua cidade, dirigiram-se aos serviços públicos de saúde mental ou pediram a intervenção da polícia. Eles, simplesmente, não sabiam mais a que santo recorrer.
Neves de Souza, explicando sua decisão de acorrentar o filho, disse que "foi desespero". Josiane Ferraz, na semana passada, disse a mesma coisa: "É triste, mas é desespero de mãe de ver o filho nesse estado e agressivo a ponto de falar que vai matar a gente".

O medo de Josiane não é exagerado. Além de quebrar a casa na exasperação e na raiva, além de roubar tudo que possa ser vendido ou trocado por crack, os jovens viciados podem matar. Em novembro do ano passado, em Rincão dos Ribeiros (RS), um neto matou o avô com um golpe de faca de cozinha no pescoço. O neto tinha 21 anos, e o avô, 88. O neto pediu dinheiro, o avô negou.

É isso que aconteceu nos casos dos quais me lembrei, e é isso que acontece em inúmeros outros, que não chegam às páginas de crônica: os pais dizem não, mas, para os jovens, as vontades e as palavras dos pais são vontades e palavras quaisquer, sem autoridade própria.

"Você não vai sair, hoje." "Ah, é? Vou sair, sim, seu babaca, e ainda pego sua grana." Um pai vigoroso enfrenta o filho; uma mãe tenta acorrentá-lo enquanto dorme. Em ambos os casos, a relação entre pais e filhos se transforma em luta de braço, e os pais se desesperam de ser pais.

O que faz com que a gente reconheça a autoridade dos pais sem que ela tenha que se impor pela força? Respostas possíveis: a dívida com quem nos engendrou, o amor por quem nos amparou, o respeito pela experiência e pela suposta sabedoria dos mais velhos etc.

Agora, por que esses argumentos podem nos parecer estranhamente piegas? Simples: eles só fazem sentido num contexto social e cultural em que parecesse normal que condutas humanas não fossem orientadas nem por interesse nem pela coerção exercida pela força, mas por valores -ou seja, eles fazem sentido num mundo, por exemplo, em que a lei, para ser respeitada, não dependesse apenas da polícia. Esse não é bem nosso mundo.

E não pense que os pais recorram à força apenas em casebres insalubres e em casos extremos de filhos viciados além da conta. A tentação (ou mesmo a necessidade) de recorrer à força surge a cada vez que o afeto e as palavras são insuficientes para que os pais sejam ouvidos. Os pais arrancam a tomada do computador, escondem o celular, garantem que não abrirão a porta se os filhos chegarem depois de uma certa hora -sem contar aqueles momentos (mais frequentes do que a gente gosta de admitir) em que, de fato, pais e filhos se encaram, a um dedo do enfrentamento físico. E há outras formas de violência, mais "limpas".

A revista "Science" de 19 de março (327: 1515-1518) publicou uma pesquisa de Sheryl Smith e outros, que foi apresentada no caderno Ciência da Folha de 19/3 e que mostra o seguinte: para camundongos na puberdade, aprender é mais difícil do que para camundongos pré-púberes. Tudo indica que um receptor celular específico é responsável pela cabeça-dura dos camundongos adolescentes, e, presumivelmente, dos adolescentes humanos.

Quem sabe, supõe Smith, esse receptor tenha sido útil, ao longo da evolução, para que os adolescentes saíssem de casa e se tornassem independentes. Mas, hoje, o tempo de preparação para a vida adulta se estende à perda de vista e, com a convivência prolongada de pais e filhos, o receptor se tornou incômodo. Que tal inventar uma droga que silencie o tal receptor e torne nossos adolescentes tranquilos, atentos e obedientes como crianças? Se ela for possível, essa droga será inventada, patenteada e usada largamente. Não será mais preciso acorrentar meninos e meninas. Mas, no essencial, não mudará absolutamente nada. Continuaremos impondo a autoridade como violência real -em vez da corrente, a injeção ou o comprimido.

fonte

Atividade proposta


Elabore uma reflexão: o que faz Contardo Caligaris a partir da noticia sobre a "cabeça dura" dos adolescentes? De que modo ele usa a pesquisa em seu texto? Ele faz alguma associação entre violência, obediência, ciência e autoridade? Explique sua resposta em até uma p
ágina.





Nota de jornal 1


19/03/2010 - 08h33

Grupo explica "cabeça dura" de adolescente

RAFAEL GARCIA
da Folha de S. Paulo

É comum ouvir a piada de que a cabeça dura dos adolescentes é uma doença sem cura e que o único jeito de pais lidarem com esse problema é esperar que os filhos cresçam e aprendam a ouvir os outros.

Um grupo de cientistas nos EUA, porém, acaba de anunciar a descoberta do mecanismo celular que afeta a capacidade de aprendizado na puberdade e mostrou como uma droga é capaz de reverter o processo.

O fenômeno, por ora, foi demonstrado apenas em camundongos, num experimento que submeteu roedores adolescentes a tarefas de aprendizado.

Em estudo na edição de hoje da revista "Science", cientistas liderados por Sheryl Smith, da Universidade do Estado de Nova York, ligam o problema dos roedores "teens" a uma proteína específica, a alfa4-beta-delta.

Essa molécula é um receptor celular. Ela atua como uma "fechadura" bioquímica que fica na superfície da célula e a faz reagir de determinada maneira, de acordo com a presença ou ausência de certa substância: a "chave" que se liga ao receptor.

Os americanos mostraram que o receptor estudado por eles prolifera durante a puberdade no hipocampo, região cerebral crucial para o aprendizado.

Cientistas já sabiam que a puberdade afeta a capacidade de aprender. Em humanos, a memória linguística e aquela que usamos para mapear o espaço a nossa volta ficam prejudicadas.

O melhor período para os pais ensinarem as coisas mais básicas às crianças, por isso, é antes dos 10 ou dos 12 anos, quando a puberdade começa a produzir alterações em meninas e meninos.

"Nos primórdios da humanidade, ou quando éramos simples animais, o período anterior à puberdade era aquele em que efetivamente aprendíamos com nossos pais coisas como arranjar comida, encontrar o caminho para casa e habilidades básicas", afirma Smith.

Ela defende a tese de que a mente evoluiu para equipar indivíduos que deixavam o núcleo familiar ainda no início da adolescência, já em busca de parceiros para constituir família.

Nesse contexto, a dificuldade de aprender com os pais estimularia outros tipos de aprendizado. "Não queremos mais isso, mas as coisas evoluíram para isso", afirma Smith.

Obediência química

Com suas cobaias, ela mostrou como uma dose extra do esteroide THP, um hormônio ligado ao estresse e à motivação, pode reverter o deficit de aprendizagem.

Administrando a droga no hipocampo dos animais, ela fez com que eles voltassem a aprender bem. Smith, porém, discorda da ideia de que a puberdade seja um "problema" que requer ser tratado.

"Não seria uma boa ideia tratar crianças ou adolescentes em geral com uma droga assim, mas algumas crianças têm mais dificuldade de aprender, e nelas o deficit de aprendizagem da puberdade é pior", explica.

Uma droga poderia ajudar nesses casos, diz a pesquisadora, mas o THP não seria adequado. "O ideal seria desenvolver uma droga mais seletiva para a alfa4-beta-delta, pois o THP afeta muitos outros receptores."

Uma questão ainda em aberto, porém, é se uma droga assim não correria o risco de cair na mesma controvérsia que os medicamentos para crianças com deficit de atenção enfrentam hoje.

Alguns psiquiatras acusam colegas de receitarem a droga ritalina para crianças normais apenas por comodidade dos pais e professores, pois o fármaco costuma deixar as crianças mais quietas.

Smith critica essa conduta. Segundo ela, formas amenas de estresse que deixam a criança motivada, e não acuada, causam liberação natural de THP no cérebro. "A motivação para melhorar seria o melhor modo de abordar o deficit de aprendizagem na puberdade", afirma.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u709117.shtml

Atividade proposta

Depois de ler a nota de jornal 1 e o trecho do "Convite à Filosofia", tente lembrar-se da aula e relacione o tema de que trata a nota 1 e os ramos da filosofia. (Entregar por escrito- entre uma e duas paginas).