domingo, 24 de outubro de 2010

Freud no Mundo de Sofia 1

Como introdução aos estudos de Freud e psicanálise, utilizaremos um capítulo do livro “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, Tradução de: Catarina Belo. Editorial Presença.

Vou falar-te de Freud e da sua teoria sobre o inconsciente.

Sentaram-se em frente à janela. Sofia olhou para o relógio e disse:

- Já são duas e meia, e ainda tenho que fazer muita coisa para a festa do jardim.

- Eu também. Vamos falar rapidamente sobre Sigmund Freud.

- Era um filósofo?

- Podemos defini-lo como um filósofo da cultura. Freud nasceu em 1856 e estudou medicina na universidade de Viena, cidade em que passou a maior parte da sua vida, justamente no período em que a vida cultural de Viena estava no apogeu. Especializou-se no ramo da medicina que se chama neurologia. Em finais do século passado - e durante a primeira metade deste século - elaborou a sua “psicologia analítica” ou “psicanálise”.

- Espero que expliques isso melhor.

-Por psicanálise entendemos quer uma descrição da psicologia humana em geral quer um método para a cura das doenças nervosas e psíquicas. Não tenho intenção de te fornecer um quadro completo nem de Freud nem da sua atividade, mas a sua doutrina do inconsciente é fundamental para compreendermos o que é um ser humano.

- Já conseguiste despertar o meu interesse. Fala!

- Segundo Freud, existe sempre uma tensão entre um ser humano e o ambiente que o rodeia. Mais precisamente, trata-se de uma tensão, ou de um conflito, entre as pulsões e necessidades do homem e as exigências do mundo externo. Não é exagerado afirmar que foi Freud a descobrir a vida instintiva do homem, e isto torna-o um expoente das correntes naturalistas, dominantes no final do século.

- O que queres dizer com "vida instintiva" do homem?

- Nem sempre a razão domina as nossas ações: o homem não é apenas um ser racional como os racionalistas do século XVIII pensavam. Muitas vezes, são os impulsos irracionais que determinam o que pensamos, o que sonhamos e fazemos. Estes impulsos irracionais podem ser expressão de pulsões profundas ou de necessidades. Tão importante como a necessidade de sucção do recém-nascido é o impulso sexual do homem.

- Compreendo.

- Em si, talvez não fosse uma verdadeira descoberta, mas Freud mostrou que as necessidades deste gênero podem ser "camufladas" ou "transformadas" e dominar assim as nossas ações sem que tenhamos consciência disso.

Mostrou ainda que mesmo as crianças têm a sua forma de sexualidade. Esta constatação da sexualidade infantil provocou na burguesia culta vienense uma reação de repulsa que tornou Freud muito impopular.

- Não é de admirar.

- Estamos a falar da chamada época vitoriana, quando tudo o que tinha a ver com a sexualidade era considerado tabu. Freud tinha chegado às suas conclusões sobre a sexualidade infantil através da sua prática como psicoterapeuta, logo, as suas afirmações tinham um fundamento empírico.

Ele tinha também verificado que muitas formas de doenças psíquicas podiam ser reconduzidas a conflitos na instância. Gradualmente, desenvolveu um método de cura que podemos definir como uma espécie de "arqueologia psíquica".

- O que queres dizer com isso?

- Um arqueólogo procura encontrar vestígios de um passado longínquo escavando os diversos estratos culturais: encontra uma faca do século XVII, um pouco mais abaixo descobre um pente do século XIV e ainda mais abaixo um vaso do século IV.

sábado, 23 de outubro de 2010

Einstein, Bohr e a realidade

por Marcelo Gleiser

ATÉ QUE PONTO podemos conhecer o mundo? Alguns acreditam que podemos ir até o fim, encontrando respostas para as perguntas mais profundas sobre as operações da natureza. Outros acreditam que o conhecimento que podemos adquirir sobre o mundo tem limites. Esses limites não são apenas uma consequência dos nossos cérebros ou das ferramentas que usamos para estudar a realidade física. Fazem parte da própria natureza.

Dentro da história da ciência, talvez a melhor expressão dessa dicotomia seja encontrada nos famosos debates entre Albert Einstein e Niels Bohr, que se deram até a morte de Einstein em 1955.

Esses dois gigantes da física do século 20, que tinham grande respeito intelectual um pelo outro, trocaram opiniões em diversas ocasiões, tentando interpretar as misteriosas propriedades da ciência que ambos ajudaram a desenvolver: a estranha mecânica quântica, a física das moléculas, dos átomos e das partículas subatômicas.

Em 1905, Einstein publicou o artigo que considerava o mais revolucionário de sua obra. Nele, propôs que, diferentemente da visão prevalente na época, na qual a luz era vista como uma onda, ela também podia ser imaginada como feita de corpúsculos, mais tarde chamados de fótons. A questão era como algo podia ser onda e partícula ao mesmo tempo. A situação piorou em 1924, quando Louis de Broglie sugeriu que não só fótons, mas prótons e toda a matéria, também eram ondas.

A nova mecânica quântica impôs duas restrições fundamentais ao conhecimento: só podemos saber a probabilidade de encontrar uma partícula em algum lugar do espaço; o observador interage com o observado. Consequentemente, o determinismo da física clássica, a do nosso cotidiano, é apenas uma aproximação de uma realidade na qual o conhecimento completo parece ser uma impossibilidade.

Einstein não podia aceitar isso. Em carta a Max Born, que havia proposto a interpretação probabilística, escreveu: "A mecânica quântica demanda nossa atenção... A teoria funciona bem, mas não nos aproxima dos segredos do Velho. De qualquer forma, estou convencido que Ele não joga dados".

Para Einstein, uma descrição probabilística da natureza não podia ser a palavra final. A natureza era ordenada. Acreditava que, em nível mais profundo, tudo voltaria ao determinismo que conhecemos. Para Bohr, o sucesso da mecânica quântica falava por si mesmo. Via a relação entre observador e observado como uma expressão da nossa conexão com o mundo. Tanto que, quando recebeu a Ordem do Elefante da coroa dinamarquesa em 1947, escolheu o símbolo taoísta do yin e do yang como brasão.

As coisas permanecem em aberto. Experimentos que tentaram encontrar algum vestígio de uma estrutura mais profunda do que a probabilidade quântica falharam. Por outro lado, a mecânica quântica exibe propriedades bizarras: um sistema pode afetar o comportamento de outro a distâncias enormes. Einstein chamava isso de "ação fantasmagórica à distância". Existem efeitos não locais (sem a causa e o efeito que conhecemos tão bem) que parecem desafiar o espaço e o tempo. Einstein e Bohr adorariam saber que o debate continua.

publicado na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Coleção de Aforismas de Nietzsche


Segue uma pequena coleção de aforismas de Nietzsche lidos em sala.


E sabeis sequer o que é para mim ‘o mundo’? Devo mostrá-lo a vós em meu espelho? Este mundo: uma monstruosidade de força, sem início, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, nem menor, que não se consome, mas apenas se transmuda... quereis um nome para esse mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, vós, os mais escondidos, os mais fortes, os mais intrépidos, os mais da meia-noite? –Esse mundo é a vontade de potência, e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência- e nada além disso! Fragmentos Póstumos, 38.

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[A vontade de potência] deveria ser algo, não um sujeito, não um objeto, não uma força, não uma matéria, não um espírito, não uma alma; mas, dir-me-ão, poder-se-ia confundir-se algo desse gênero com uma quimera. Eu mesmo o creio. E seria ruim se não fosse assim: é preciso mesmo que ela possa confundir-se com tudo o que existe e pudesse existir, e não somente com a quimera. Ela deve ser o grande traço de família com o qual todas as coisas se reconhecem como aparentadas com ela. Fragmentos póstumos, 40.


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[A verdade é] apenas um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitiçadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornam gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.

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Homem! Tua vida inteira como uma ampulheta será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez – um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo e então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e cada inimigo, esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez. O eterno retorno

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Sonha-se com Estados nos quais este tipo de homem perfeito tenha a seu favor uma enorme maioria: não fizeram outra coisa nossos socialistas, nem os senhores utilitaristas. Com isso parece assinalar-se um fim à evolução humana: em todo caso, a fé em um progresso até o ideal é a única forma em que se concebe o fim da história. ‘In summa’: colocou-se o ‘reino de Deus’ no futuro, na terra, no humano, mas no fundo conservou-se a fé no antigo ideal. fragmentos póstumos, 8.

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Defeito Hereditário dos Filósofos

Todos os filósofos têm em comum o defeito de partir do homem atual e acreditar que, analisando-o, alcançam seu objetivo. Involuntariamente imaginam "o homem" como uma eterna veritas (verdade eterna), como uma constante em todo o redemoinho, uma medida segura das coisas. Mas tudo o que o filósofo declara sobre o homem, no fundo, não passa de testemunho sobre o homem de um espaço de tempo bem limitado. Falta de sentido histórico é o defeito hereditário de todos os filósofos; inadvertidamente, muitos chegam a tomar a configuração mais recente do homem, tal como surgiu sob a pressão de certas religiões e mesmo de certos eventos políticos, como a forma fixa de que se deve partir. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser; enquanto alguns deles querem inclusive que o mundo inteiro seja tecido e derivado dessa faculdade de cognição.

-Mas tudo o que é essencial na evolução humana se realizou em tempos primitivos, antes desses quatro mil anos que conhecemos aproximadamente; nestes o homem já não deve ter se alterado muito. O filósofo, porém, vê "instintos" no homem atual e supõe que estejam entre os fatos inalteráveis do homem, e que possam então fornecer uma chave para a compreensão do mundo em geral: toda a teleologia se baseia no fato de se tratar o homem (físico) dos últimos quatro milênios como um ser eterno, para o qual se dirigem naturalmente todas as coisas do mundo, desde o seu início. Mas tudo veio a ser; não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas. - Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.

Humano, demasiado humano, § 2.

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O ilógico necessário

Entre as coisas que podem levar um pensador ao desespero está o conhecimento de que o ilógico é necessário para o homem e de que do ilógico nasce muito de bom. Ele esta tão firmemente implantado nas paixões, na linguagem, na religião e em geral em tudo aquilo que empresta valor à vida, que não se pode extraí-lo sem com isso danificar irremediavelmente essas belas coisas. São somente os homens demasiado ingênuos que podem acreditar que a natureza do homem possa ser transformada em uma natureza puramente lógica; mas se houver graus de aproximação desse alvo, o que não haveria de se perder nesse caminho! Mesmo o homem mais racional precisa outra vez, de tempo em tempo, da natureza, isto é de sua postura fundamental ilógica diante de todas as coisas. Humano, demasiado humano, § 31.


Atividade proposta

Apenas para aqueles que não entregaram a atividade em sala: ler os aforismas e escolher quatro deles para explicar seu conteúdo, o tema a que se referem e o contexto a partir da filosofia de Nietzsche.


quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Trabalho sobre a Bienal

[…] o artista moderno quer criar coisas. A ênfase está em criar e em coisas. Ele quer sentir que realizou algo que antes não existia. Não apenas a cópia de um objeto real, por mais habilidosa, não apenas uma peça de decoração, por mais engenhosa, mas algo mais importante e duradouro do que ambas, algo que ele sente ser mais real do que os objetos vulgares da nossa trivial existência. Se quisermos entender essa disposição de espírito devemos voltar à nossa própria infância, a uma época em que ainda éramos capazes de fazer coisas de tijolo ou areia, em que transformávamos uma vassoura num veículo mágico e um punhado de pedras num castelo encantado. Muitas vezes essas coisas que criávamos adquiriam para nós um significado imenso – possivelmente tão grande quanto a imagem devia ter para os primitivos. Acredito ser esse forte sentimento pela unicidade de uma coisa criada magicamente por mãos humanas que o escultor Henry Moore (1898-1986) quer que alimentemos ao olhar para suas criações. Moore não principia olhando para o modelo; principia observando a pedra. Quer “fazer alguma coisa” dela. Não com o fragmentá-la, reduzi-la a pedaços, mas tateando-a e procurando descobrir o que a pedra “quer”. Se ela se converte em sugestão de uma figura humana, ótimo. Mas até mesmo nessa figura Moore quer preservar algo da solidez e simplicidade de uma rocha. Ele não quer fazer uma mulher de pedra, mas uma pedra sugerindo uma mulher.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Trad. A. Cabral. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan, 1993. p. 467. (Itálico do autor)

Após a visita à Bienal, descreva uma obra da exposição que tenha chamado sua atenção e realize um comentário em comparação com o texto acima.

Resposta sob a forma de dissertação com introdução, desenvolvimento argumentativo e conclusão. Tamanho mínimo de 30 linhas.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

“Perguntemo-nos quem é propriamente ‘mau’, no sentido da moral do ressentimento. A resposta, com todo o rigor: precisamente o “bom” da outra moral.”

Friedrich Nietzsche
Além do Bem e do Mal

Nietzsche no jornal


O poeta e professor Antonio Cícero publicou o texto "Nietzsche e o niilismo", no caderno "Ilustrada", da Folha de São Paulo, em 12 de junho de 2010:

Nietzsche e o niilismo


"Nietzsche, em “A vontade de poder”, pergunta: “Que significa o niilismo?” E responde: “Que os valores supremos estão perdendo o seu valor”. Em “A gaia ciência”, ele descreve o niilismo como “a desconfiança de que há uma oposição entre o mundo em que até há pouco estávamos em casa com nossas venerações [...] e outro mundo em que somos nós mesmos: desconfiança inexorável, radical, profundíssima [...] que poderia colocar a próxima geração ante a terrível alternativa: ou vocês abolem as suas venerações ou – a si próprios! A segunda opção seria o niilismo – mas não seria a primeira também niilismo?”

Na verdade, o niilismo nesse sentido, isto é, a desconfiança e a negação dos valores supremos, constitui a SEGUNDA etapa do niilismo. A primeira consiste na depreciação da vida real em nome da postulação e da valorização de um mundo supra-sensível superior a ela. É o que faz a metafísica platônica, por exemplo. Platão, como se sabe, defende que o mundo que nos é dado pelos sentidos e no qual agimos, não passa de um simulacro do mundo verdadeiramente real, que é o mundo das ideias eternas, universais e imutáveis e, em primeiro lugar, da ideia do bem: do bem em si. “O pior, mais persistente e perigoso dos erros até hoje”, diz Nietzsche, “foi um erro de dogmático: a invenção platônica do puro espírito do bem em si”. Por que? Porque ele desvaloriza o mundo real. O mundo sublunar em que vivemos é tanto menos dotado de realidade e valor, quanto mais se afaste desse mundo ideal.

Segundo Nietzsche, o Cristianismo é um platonismo vulgar, um “platonismo para o povo”. Trata-se, portanto, de niilismo para o povo. É “o nada divinizado”, como diz. Que maior degradação do mundo real pode ser concebida? Tal é a primeira etapa do niilismo, na Europa.

E como se chega à segunda etapa, isto é, o niilismo que já se considera como tal? Em “A vontade do poder”, Nietzsche especula que a moralidade cristã acaba por se voltar contra o próprio Deus cristão. A valorização da veracidade, que faz parte dessa moral, alimenta uma vontade da verdade que acaba por se revoltar contra a falsidade das interpretações cristãs do mundo. Descobre-se que não se tem o menor direito de pressupor um ser transcendente ou um em si das coisas, que fosse ou divino ou a encarnação da moralidade. A reação contra a ficção de que “Deus é a verdade” é: “Tudo é falso”.

A partir disso, negam-se todos os valores supremos. É a morte de Deus. O domínio do transcendente se torna nulo e vazio. O niilista nega Deus, o bem, a verdade, a beleza. Nada é realmente verdadeiro, nada realmente bom. Se antes a vida real era desvalorizada em nome dos valores supremos, agora os próprios valores supremos são desvalorizados, sem que se tenha reabilitado a vida real. Desmente-se o mundo metafísico, sem se crer no mundo físico. Nega-se qualquer finalidade ou unidade ao mundo. Nada vale a pena. No limite, dá-se uma negação de toda vontade. A vida é inteiramente depreciada.

Mas além desse modo passivo de niilismo passivo, que representa decadência e constitui um retrocesso do poder do espírito, há um outro niilismo, que Nietzsche chama de “niilismo ativo”. Este representa o aumento do poder do espírito. Nietzsche afirma que “seu máximo de força relativa, o [espírito] alcança como força violenta de destruição: como niilismo ativo”. Nietzsche classifica a si próprio como o primeiro niilista europeu perfeito, isto é, “o primeiro niilista europeu que já viveu em si o niilismo até o fim, já o deixou atrás de si e o superou”.

Tal niilismo não pode consistir, evidentemente, na destruição física das coisas ou dos seres humanos. Trata-se antes da abertura do caminho para a “transvaloração de todos os valores”, através do reconhecimento do caráter meramente relativo, particular e contingente de todas as crenças e valores dados. Ora, não é exatamente a esse reconhecimento que o ceticismo metódico instaurado pela filosofia moderna deveria ter conduzido, se tivesse realmente sido levado às últimas conseqüências? Não teria ele então consistido em niilismo ativo? Nesse sentido, Heidegger tem razão, ao pensar que Descartes está menos distante de Nietzsche do que este imagina... "

extraído do blog Acontecimentos de Antonio Cícero.


PS: O pequeno artigo nos serve como síntese dos temas que estamos tratando em sala e também para mostrar que a filosofia vai muito além das aulas e faz parte do cotidiano.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A filosofia de Nietzsche

Texto de referência adotado para as aulas sobre Nietzsche:


"Friedrich Nietzsche, sim à vida"


aula de reposição

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Marx

Slide referente à aula sobre Marx. Primeira parte.

Marxismo

Ilha das Flores

De Descartes a Hegel

Slides apresentados em aula.

Descartes a Hegel

Marx 2

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."

Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."

Bertolt Brecht




Sobre o Manifesto do Partido Comunista

O vídeo abaixo é uma montagem realizada com trechos de desenhos animados e texto original do "Manifesto do Partido Comunista" de Marx e Engels.

Podemos reconhecer os temas da luta de classes, da exploração e contradição social e a proposta de revolução proletária que define a filosofia marxista.




O socialismo e o mundo atual

Fato histórico. A declaração de Fidel Castro sobre o regime cubano:


Fidel Castro diz que modelo econômico cubano não funciona mais



Leia em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2010/09/08/fidel-castro-diz-que-modelo-economico-cubano-nao-funciona-mais.jhtm?action=print

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ideologia e política no Brasil

O artigo Capitalismo à brasileira, de Fernando Rodrigues, publicado na Folha de São Paulo em 01 de setembro, trata dos vínculos entre os empresários e as campanhas políticas para as eleições de 2010. Faz também uso do termo ideologia, embora com significado ligeiramente diferente daquele utilizado por Marx em seus escritos.


"Empresário sem ideologia há no planeta inteiro. Em períodos eleitorais, fica bem com todos no establishment. Nos EUA, em 2008, essa gente doou para o democrata Barack Obama e para o republicano John McCain.

Mas há limites em sociedades mais sofisticadas. Muitos escolhem ter um lado. Steve Jobs, da Apple, doou US$ 229 mil desde 1982 a políticos e a partidos. Desse total, destinou só US$ 1.000 a um candidato republicano ao Senado. Suas doações são quase exclusivamente para democratas. A Apple, como se sabe, atravessou muito bem os anos da dinastia Bush. Já Bill Gates, da Microsoft, pulveriza recursos meio a meio entre democratas e republicanos -compreensível.

No Brasil, é raro um grande empresário revelar em público sua intenção de doar só a Dilma Rousseff (PT) ou a José Serra (PSDB). Nesta semana, o maior homem de negócios do país, Eike Batista, declarou ter dado dinheiro à petista e ao tucano, de maneira indistinta. Por quê? "Em prol da democracia", respondeu. Em seguida, no programa "Roda Viva", da TV Cultura, deu mais clareza ao seu ato: "Não vão atrasar os meus projetos nos vários Estados por causa de política".

Democracia e negócios não devem ser nem são excludentes. Mas Eike Batista, banqueiros e empreiteiros fazem pouco "em prol da democracia". O dinheiro sai de seus bolsos por uma razão utilitária. O recurso não é oferecido a um candidato porque sua proposta na área da educação é considerada ótima.

Grandes empresários -com as exceções de praxe- costumam reclamar da má qualidade dos políticos. Poucos têm coragem de fazer críticas em público. Pusilânimes, doam a quase todos os candidatos com alguma chance de vitória. Perpetuam um ambiente no qual prosperam sempre. Um capitalismo à brasileira, sem risco. Mais um oximoro produzido pela forma invertebrada de se fazer política no Brasil."

Os procedimentos da ideologia

Como a ideologia chega a obter seus resultados? Em primeiro lugar, opera por inversão, isto é, coloca os efeitos no lugar das causas e transforma estas últimas em efeitos. Ela fabrica ideias e falsas causalidades. Por exemplo, o senso comum social afirma que a mulher é um ser frágil, sensitivo, intuitivo, feito para as doçuras do lar e da maternidade e que, por isso, foi destinada, por natureza, para a vida doméstica, o cuidado do marido e da família. Assim o “ser feminino” é colocado como causa da “função social feminina”. Ora, historicamente, o que ocorreu foi exatamente o contrário: na divisão sexual social do trabalho e na divisão dos poderes no interior da família, atribuiu-se à mulher um lugar levando-se em conta o lugar masculino; como este era o lugar do domínio, da autoridade e do poder, deu-se à mulher o lugar subordinado e auxiliar, a função complementar e, visto que o número de braços para o trabalho e para a guerra aumentava o poderio do chefe da família e chefe militar, a função reprodutora da mulher tornou-se imprescindível, trazendo como consequência sua designação prioritária para a maternidade.


Estabelecidas essas condições sociais, era preciso persuadir as mulheres de que seu lugar e sua função não provinham do modo de organização social, mas da Natureza, e eram excelentes e desejáveis. Para isso, montou-se a ideologia do “ser feminino” e da “função feminina” como naturais e não como históricos e sociais. Como se observa, uma vez implantada uma ideologia, passamos a tomar os efeitos pelas causas.


A segunda maneira de operar da ideologia é a produção do imaginário social, através da imaginação reprodutora. Recolhendo as imagens diretas e imediatas da experiência social (isto é, do modo como vivemos as relações sociais), a ideologia as reproduz, mas transformando-as num conjunto coerente, lógico e sistemático de ideias que funcionam em dois registros: como representações da realidade (sistema explicativo ou teórico) e como normas e regras de conduta e comportamento (sistema prescritivo de normas e valores). Representações, normas e valores formam um tecido de imagens que explicam toda a realidade e prescrevem para toda a sociedade o que ela deve e como deve pensar, falar, sentir e agir. A ideologia assegura, a todos, modos de entender a realidade e de se comportar nela ou diante dela, eliminando dúvidas, ansiedades, angústias, admirações, ocultando as contradições da vida social, bem como as contradições entre esta e as idéias que supostamente a explicam e controlam. Enfim, uma terceira maneira de operação da ideologia é o silêncio. Um imaginário social se parece com uma frase onde nem tudo é dito, nem pode ser dito, porque, se tudo fosse dito, a frase perderia a coerência, tornar-se-ia incoerente e contraditória e ninguém acreditaria nela. A coerência e a unidade do imaginário social ou ideologia vêm, portanto, do que é silenciado.

A ideologia precisa das idéias-imagens, da inversão de causas e efeitos, do silêncio para manifestar os interesses da classe dominante e escondê-los como interesse de uma única classe social. A ideologia não é o resultado de uma vontade deliberada de uma classe social para enganar a sociedade, mas é o efeito necessário da existência social da exploração e dominação, é a interpretação imaginária da sociedade do ponto de vista de uma única classe social.


Adaptado de Chauí, M. "Convite à Filosofia"

A ideologia

A alienação se exprime numa “teoria” do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida. Um exemplo desse senso comum aparece no caso da “explicação” da pobreza, em que o pobre é pobre por sua própria culpa (preguiça, ignorância) ou por vontade divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, na verdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade – sacerdotes, filósofos, cientistas, professores, escritores, jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante de uma sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as ideias de uma das classes sociais – a dominante e dirigente – tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade. A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos. Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos todos iguais porque participamos da idéia de “humanidade”, ou da idéia de “nação” e “pátria”, ou da idéia de “raça”, etc. Diferenças naturais: somos levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos talentos e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor, etc.


A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as idéias.


Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos cidadãos e, portanto, temos todos os mesmos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. No entanto, sabemos que isso não acontece de fato: as crianças de rua não têm direitos; os idosos não têm direitos; os direitos culturais das crianças nas escolas públicas são inferiores aos das crianças que estão em escolas particulares, pois o ensino não é de mesma qualidade em ambas; os negros e índios são discriminados como inferiores; os homossexuais são perseguidos como pervertidos, etc. A maioria, porém, acredita que o fato de ser eleitor, pagar as dívidas e contribuir com os impostos já nos faz cidadãos, sem considerar as condições concretas que fazem alguns serem mais cidadãos do que outros. A função da ideologia é impedir-nos de pensar nessas coisas.


Retirado de Chauí, M. "Convite à Filosofia"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A formação da sociedade segundo Marx

Para compreender o fenômeno da alienação, Marx estudou o modo como as sociedades são produzidas historicamente pelos seres humanos. Verificou que, historicamente, uma sociedade (pequena, grande, tribal, imperial, não importa) sempre começa por uma divisão e que essa divisão organiza todas as relações sociais que serão instituídas a seguir. Trata-se da divisão social do trabalho. Na luta pela sobrevivência, os seres humanos se agrupam para explorar os recursos da Natureza e dividem as tarefas: tarefas dos homens adultos, tarefas das mulheres adultas, tarefas dos homens jovens, tarefas das mulheres jovens, tarefas das crianças e dos idosos. A partir dessa divisão, organizam a primeira instituição social: a família, na qual o homem adulto, na qualidade de pai, torna-se chefe e domina a mulher adulta, sua esposa e mãe de seus filhos, os quais também são dominados pelo pai.


As famílias trabalham e trocam entre si os produtos do trabalho. Surge uma segunda instituição social: a troca, isto é, o comércio. Algumas famílias conquistam terras melhores do que outras e conseguem colheitas ou gado em maior quantidade que outras, trocando seus produtos por uma quantidade maior que a de outras. Ficam mais ricas. As muito pobres, não tendo conseguido produzir nada ou muito pouco, vêem-se obrigadas a trabalhar para as mais ricas em troca de produtos para a sobrevivência. Começa a surgir uma terceira instituição social: o trabalho servil, que desembocará na escravidão.

Os mais ricos e poderosos reúnem-se e decidem controlar o conjunto de famílias, distribuindo entre si os poderes e excluindo algumas famílias de todo poder. Começa a surgir uma quarta instituição social: o poder político, de onde virá o Estado.

Nessa altura, os seres humanos já começaram a explicar a origem e a finalidade do mundo, já elaboraram mitos e ritos. As famílias ricas e poderosas dão a alguns de seus membros autoridade exclusiva para narrar mitos e celebrar ritos. Criam uma outra instituição social: a religião, dominada por sacerdotes saídos das famílias poderosas e que, por terem a autoridade para se relacionar com o sagrado, tornam-se temidos e venerados pelo restante da sociedade. São um novo poder social.


Os vários grupos de famílias dirigentes disputam entre si terras, animais e servos e dão início a uma nova instituição social: a guerra, com a qual os vencidos se tornam escravos dos vencedores, e o poder econômico, social, militar, religioso e político se concentra ainda mais em poucas mãos.


Com essa descrição, Marx observou que a sociedade nasce pela estruturação de um conjunto de divisões: divisão sexual do trabalho, divisão social do trabalho, divisão social das trocas, divisão social das riquezas, divisão social do poder econômico, divisão social do poder militar, divisão social do poder religioso e divisão social do poder político. Por que divisão? Porque em todas as instituições sociais (família, trabalho, comércio, guerra, religião, política) uma parte detém poder, riqueza, bens, armas, idéias e saberes, terras, trabalhadores, poder político, enquanto outra parte não possui nada disso, estando subjugada à outra, rica, poderosa e instruída.


Na existência social, os seres humanos julgam que sabem o que é a sociedade, dizendo que Deus ou a Natureza ou a Razão a criaram, instituíram a política e a História, e que os homens são seus instrumentos; ou, então, acreditam que fazem o que fazem e pensam o que pensam porque são indivíduos livres, autônomos e com poder para mudar o curso das coisas como e quando quiserem. Por exemplo, quando alguém diz que uma pessoa é pobre porque quer, porque é preguiçosa, ou perdulária, ou ignorante, está imaginando que somos o que somos somente por nossa vontade, como se a organização e a estrutura da sociedade, da economia, da política não tivesse qualquer peso sobre nossas vidas. A mesma coisa acontece quando alguém diz ser pobre “pela vontade de Deus” e não por causa das condições concretas em que vive. Ou quando faz uma afirmação racista, segundo a qual “a Natureza fez alguns superiores e outros inferiores”.


A alienação social é o desconhecimento das condições histórico-sociais concretas em que vivemos, produzidas pela ação humana também sob o peso de outras condições históricas anteriores e determinadas. Há uma dupla alienação: por um lado, os homens não se reconhecem como agentes e autores da vida social com suas instituições, mas, por outro lado e ao mesmo tempo, julgam-se indivíduos plenamente livres, capazes de mudar suas vidas individuais como e quando quiserem, apesar das instituições sociais e das condições históricas. No primeiro caso, não percebem que instituem a sociedade; no segundo caso, ignoram que a sociedade instituída determina seus pensamentos e ações.


Adaptado de Chauí, M. "Convite à Filosofia".