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| Mafalda |
| Quino |
Por Luiz Felipe Pondé
Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.
O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o “ennui” (angústia, tédio) e o “divertissement” (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).
O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.
Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.
O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos.
Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas “leis”: o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama.
A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa “verdade”, ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.
Deste “solo da existência” (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro “A Repetição”, é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.
É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida “correta” (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando “saltamos na fé”, sem garantias de salvação. Mas existe também o “abismo do amor”.
Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.
Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.
A ideia que abre o livro é que o amor “só se conhece pelos frutos”. Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua “visibilidade” apenas prática.
Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem.
Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.
Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como “lei da alma”), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:
“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”
Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.
Publicado na Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada, em 13 de junho de 2011.
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por Fernando ReinachVocê sabe exatamente onde está, provavelmente sentado lendo jornal. Uma das funções importantes do nosso cérebro é coletar as informações originadas nos órgãos dos sentidos, como visão e tato, processar esta informação, e nos manter informados sobre nossa localização.
Apesar do sistema de localização utilizado pelo cérebro ser muito estudado, havia uma polêmica entre os cientistas. Alguns acreditavam que este sistema era resultado do aprendizado, sendo desenvolvido durante a infância. Isto sugeria que o cérebro de um recém-nascido se assemelha a uma página em branco preenchida ao longo do desenvolvimento, uma idéia associada ao pensamento de John Locke. Outros acreditavam que já nascemos com um cérebro capaz de determinar nossa localização no espaço, uma idéia associada a Kant que acreditava que a noção de espaço e tempo é uma pré-condição para o aprendizado.
A novidade é que estudos com ratos recém nascidos demonstram que ao abrirem os olhos eles já possuem o aparato cerebral capaz de localizá-los no espaço.
Dificilmente encontrarmos um rato em uma cadeira lendo jornal, mas foi no cérebro deste animal que o sistema de localização foi mais estudado. O rato utiliza a informação espacial para se orientar quando procura alimentos, parceiros sexuais ou quando volta para o ninho.
Fazem muitos anos que se descobriu que existem diversos tipos de neurônios envolvidos no processamento de informações espaciais. Estes neurônios foram descobertos quando cientistas implantaram minúsculos eletrodos no cérebro de ratos. Estes eletrodos são capazes de detectar a atividade de cada neurônio e enviar esta informação a um computados. Quando os ratos monitorados eram soltos em suas gaiolas e a atividade dos neurônios monitorada, os cientistas descobriram que existem diversas classes de neurônios. Uma das classes, chamada de neurônios “localizadores”, dispara sinais elétricos quando o rato passa em um determinado local da gaiola. Para cada local da gaiola foi possível detectar vários destes neurônios. Existem neurônios para o canto esquerdo, o canto direito e assim por diante. Toda vez que o rato passa por este local, independente de onde ele vinha ou para onde ia, estes neurônios disparam. Um segundo tipo de neurônio, chamado de “direcional”, dispara sempre que o rato esta orientado em uma direção. Assim, por exemplo, um neurônio “direcional norte” dispara sempre que o corpo do rato esta orientado em direção ao norte independente de onde ele está na gaiola. Um neurônio “direcional sul” dispara quando o nariz do rato esta apontado para o sul e assim por diante.
Neste novo experimento os cientistas, usando técnicas de micro cirurgia, foram capazes de implantar os eletrodos em dezenas ratos recém nascidos que nunca haviam saído do ninho, ou sequer aberto os olhos. Os ratos foram colocados de volta no ninho e, dias depois, assim que saíram pela primeira vez para passear pela gaiola, seus neurônios já estavam sendo monitorados. A descoberta é que nestes ratos foi possível detectar a existência de
neurônios “localizadores” e neurônios “direcionais” com características idênticas aos existentes nos ratos adultos.
O fato destes neurônios existirem antes de haver qualquer aprendizado sobre o ambiente sugere que os ratos já nascem com a capacidade de se localizar e portanto ela deve estar codificada diretamente no seu genoma não dependendo do aprendizado. É mais uma demonstração que nascemos com o cérebro parcialmente pré-configurado. Se Kant estivesse vivo provavelmente ficaria feliz com esta descoberta.
Mais informações: Development of the spacial representation system in the rat. Science vol. 328 pag 1576 2010
Artigo publicado no jornal Estado de São Paulo em 15/07/2010


Do ponto de vista da mãe natureza, já nascemos com o sentido da vida, embutido em nossos softwares cerebrais, completamente pronto.
Dizem os genes masculinos aos seus portadores: "Procrie com o maior número de mulheres possível, escolhendo as mais belas, dóceis, inteligentes e atenciosas com as crias.
Dê alguma atenção e ajuda a elas para que suas crias não sejam prejudicadas, mas nada que o impeça de partir para a próxima.
De preferência, tenha um harém bem cuidado por eunucos (você não vai querer criar filhos de outros, claro) e vá incorporando novas mulheres pelos mesmos critérios. Para isso, você precisa se preparar: torne-se belo, forte, alto, inteligente, mas, sobretudo, rico e poderoso. Lidere guerras que possam tomar do inimigo suas posses e mulheres, pois isso o enriquecerá e encherá seu harém (um sultão do século 19 teve 840 filhos, um exemplo de homem comandado por seus genes).
Se a política do país o obrigar à monogamia, drible-a sendo um polígamo seriado: você tem dinheiro para sustentar oito ex-esposas e suas crias e você tem tempo para isso, já que os homens não envelhecem. Podem seguir acumulando dinheiro e poder e são férteis até a morte".
Dizem os genes femininos às suas portadoras: "Procrie o mais que puder com os homens mais belos, fortes, inteligentes, agressivos, mas, sobretudo, ricos e poderosos. Se possível, case-se com um deles e cuide para que ele a prestigie e dê garantias de provimento para você e suas crias, pelo maior tempo possível.
Se você não conseguir um 'topo de linha', pode se casar com um 'mais ou menos': você pode se oferecer e procriar com o patrão dele, sem que ele saiba, e colher genes poderosos para suas crias, desde que a aparência delas não seja testemunha da sua traição. Prepare-se: comece cedo. Você não tem muito tempo, e juventude é seu maior cacife.
Procure ser bela e parecer recatada: isso aumenta seu preço de compra e ilude o homem com presumida fidelidade. Não conseguindo ser bela, você pode ser oferecida, mas procure parecer bela, usando todos os expedientes ao seu alcance.
O mesmo vale para a juventude (velhas nunca foram símbolos sexuais). Malhação, plástica e pintar cabelos servem para isso. Cuide das crias. São raros os homens que se preocupam com isso".
É, a natureza é cínica e cruel para atingir seus objetivos. A ponto de os biólogos dizerem que a galinha é uma máquina inventada pelo ovo para fazer outros ovos.
Mas nós somos um bicho que pensa, que deseja ética, que filosofa e que, portanto, busca um sentido na vida diferente daquele dos genes.
Isso resultou em inúmeros "sentidos da vida" criados por nós. Mas meu objetivo era falar do que ninguém fala: da natureza humana, essa força poderosa que carregamos sem saber.
FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico, é autor de "Onde Foi Que Eu Acertei?", entre outros livros fdaudt2@gmail.com.br
Texto publicado no jornal Folha de São Paulo, caderno Equilíbrio, em 17 de maio de 2011.
Immanuel Kant (1724-1804) nasceu na Alemanha. Kant questiona na sua obra “Crítica da razão pura” se é possível uma "razão pura" independente da experiência. Daí seu método ser conhecido como criticismo. Diante da questão “Qual é o verdadeiro valor dos nossos conhecimentos e o que é conhecimento?”, Kant coloca a razão num tribunal para julgar o que pode ser conhecido legitimamente e que tipo de conhecimento não tem fundamento. Condena os empiristas (tudo que conhecemos vem dos sentidos) e, da mesma forma, não concorda com os racionalistas (é errado julgar que tudo quanto pensamos vem de nós): o conhecimento deve constar de juízos universais, da mesma maneira que deriva da experiência sensível.
Para superar essa contradição, Kant explica que o conhecimento é constituído de matéria e forma. A matéria dos nossos conhecimentos são as próprias coisas, e a forma somos nós mesmos. Exemplificando: para conhecer as coisas, precisamos ter delas uma experiência sensível; mas essa experiência não será nada se não for organizada por formas da nossa sensibilidade, as quais são a priori, ou seja, anteriores a qualquer experiência (e condição da própria experiência). Assim, para conhecer as coisas, temos de organizá-las a partir da forma a priori do tempo e do espaço. Para Kant, o tempo e o espaço não existem como realidade externa, são antes formas que o sujeito põe nas coisas.
Outro exemplo: quando observamos a natureza e afirmamos que uma coisa "é isto", ou "tal coisa é causa de outra", ou "isto existe", temos, de um lado, coisas que percebemos pelos sentidos, mas, de outro, algo escapa aos sentidos, isto é, as categorias de substância, de causalidade, de existência (entre outras). Essas categorias não são dadas pela experiência, mas são postas pelo próprio sujeito conhecedor.
Portanto, “o nosso conhecimento experimental é um composto do que recebemos por impressões e do que a nossa própria faculdade de conhecer de si mesma tira por ocasião de tais impressões”.
Kant também conclui que não é possível conhecer as coisas tais como são em si, ou seja, o noumenon (a coisa-em-si) é inacessível ao conhecimento, apenas podemos conhecer os fenômenos (o que aparece). A inovação de Kant consiste em afirmar que a realidade não é um dado exterior ao qual o intelecto deve se conformar, mas, ao contrário, o mundo dos fenômenos só existe na medida em que "aparece" para nós e, portanto, de certa forma participamos da sua construção.
Prosseguindo a análise da possibilidade do conhecimento, Kant se depara com dificuldades insolúveis ao questionar sobre as realidades da metafísica, tais como a existência de Deus, a imortalidade da alma, a liberdade, a infinitude do universo. Se você seguiu nosso raciocínio, lembrará que todo conhecimento, para Kant, é constituído pela forma a priori do espírito e pela matéria fornecida pela experiência sensível. Ora, os seres da metafísica não podem preencher essa segunda exigência: não temos experiência sensível de Deus, por exemplo. Portanto, o conhecimento metafísico é impossível, e devemos nos abster de afirmar ou negar qualquer coisa a respeito dessas realidades. Assim, a razão é incapaz de afirmar ou negar a existência de Deus. (O agnosticismo pensado por Kant não se confunde com o ateísmo, pelo qual afirmamos a inexistência de Deus.)
Entretanto, em outra obra, “Crítica da razao pratica”, Kant tenta recuperar as realidades da metafísica que destruíra no processo anterior. Pela análise da moralidade, Kant deduz a liberdade humana, a imortalidade da alma e a existência de Deus.
Tal como Copérnico dissera que não é o Sol que gira em torno da Terra, mas é esta que gira em torno daquele, também Kant afirma que o conhecimento não é o reflexo do objeto exterior: é o próprio sujeito que constrói o objeto do seu saber. Nesse sentido, dizemos que Kant realizou uma “revolução copernicana” na teoria do conhecimento.
Adaptado de “Filosofando”, Aranha e Pires, p.175-179, 1991.
O artigo de Luiz felipe Pondé foi apresentado em sala no debate "Viver Muito ou Viver Intensamente?"
“100%”, Luiz Felipe Pondé
Atenção, pecadores e viciados em sexo, comida, bebida, dinheiro e poder: vocês estão ultrapassados. Há uma nova ganância no ar: a mania de qualidade de vida e saúde total. Esta ganância é o que o jornal "Le Monde Diplomatique" já chamava de "la grande santé" ("a grande saúde") nos anos 90. A mania de ter a saúde como fim último da vida.Acho isso antes de tudo brega, mas há consequências mais sérias que um simples juízo estético para esta nova forma de ganância. Consequências morais, políticas e jurídicas: o controle científico da vida.
Agora esses fanáticos estão a ponto de demonizar o açúcar, a gordura e o sódio. Querem fotos de gente morrendo de diabetes no saco de açúcar ou de ataque cardíaco nas churrascarias. O clero fascista da saúde não para de botar para fora sua alma azeda.
Mas, como assim, ganância? Sim, esta ganância significa o seguinte: quero tirar do meu corpo o máximo que ele pode me dar. Inevitavelmente fico com cara de monstro narcisista quando dedico minha vida à saúde total. Sempre sinto um certo ar de ridículo nesses pais que obrigam seus filhos a comer apenas rúcula com pepinos e cenoura desde a infância.
Suspeito que os "purinhos", no fundo, se deliciam quando veem fumantes morrerem de câncer ou carnívoros morrerem do coração. Sentem-se protegidos da morte porque vivem como "pombinhos da saúde". São medrosos. A vida é desperdício, e ganancioso não gosta disso.
No caso da morte, probabilidade é como gravidade: 100% de certeza. Logo, a luta contra a morte é uma batalha perdida, nunca uma vitória definitiva.
Se você não morrer de acidentes (carro, avião, atropelamentos, assaltos, homicídios) ou de epidemias (tipo pestes) ou por endemias (tipo doença de chagas), ou de doença metabólica (tipo diabetes) ou de doenças cardiovasculares (tipo AVC ou acidente cardiovascular e ataque cardíaco), você sempre morrerá de câncer.
Claro, ainda temos contra (ou a favor) a tal herança genética. Você passa a vida comendo rúcula e morre de AVC porque suas "veias" não valem nada. Que pena, passou uma vida comendo comida sem graça e morreu na praia. E vai gastar dinheiro com hospital do mesmo jeito, ou, talvez, mais ainda. Sorry.
Logo, caro vegetariano, escapando de doenças cardiovasculares porque você evitou (religiosamente) gorduras supostamente desnecessárias, você pode simplesmente morrer de câncer porque deu azar com o pai que teve ou porque, no fim, tudo vira câncer, não sabia?
Um dia, esses maníacos da saúde total desejarão processar os pais por terem deixado que eles comessem coxinhas e brigadeiros quando eram crianças ou porque simplesmente tinham maus genes em seus gametas.
Sinceramente, não estou convencido de que viver anos demais seja muito vantajoso. Sem "abusar" da comida, da bebida, do tabaco, do sexo, das horas mal dormidas, não vale a pena viver muitos anos.
A menos que eu queira ser uma "freira feia sem Deus", o que nada tem a ver com freiras de verdade, uso aqui apenas a imagem estereotipada que temos das freiras como seres chatos, opressores e feios , ou seja, uma pessoa limpinha, azeda e repressora.
Como diz meu filho médico de 27 anos, "nunca houve uma geração tão sem graça como esta, obcecada por viver muito". Eu, pessoalmente, comparo esta geração de pessoas obcecadas pela saúde àqueles personagens de propaganda de pasta de dentes: com dentes branquinhos, cabelos bem penteados e com cara de bolha (ou "coxinha", como se diz por aí).
Dei muita risada quando soube que alguns cientistas estavam relacionando câncer de boca à prática frequente de sexo oral. Será que sexo oral dá cárie também? Terá a vida sentido sem sexo oral? Fazer ou não fazer, eis a questão!
Essa ciência horrorosa da saúde total deverá logo descobrir que sexo oral faz mal, e aí, meu caro "pombinho da saúde", como você vai fazer para viver sendo perseguido pela saúde pública? Talvez, ao final, não seja muito problema para você, porque quem é muito limpinho não deve gostar mesmo dessa sujeira que é trocar fluidos e gostos por aí.

Trabalho jornalístico fala sobre o último elo de uma cadeia: o destino final dos fetos
por Carlos Heitor Cony
DOIS JORNALISTAS ingleses, Michel Litchfield e Susan Kentish, fizeram há tempos uma ampla pesquisa sobre a indústria do aborto em Londres. O resultado foi um livro que causou espanto e merece, ao menos, uma reflexão de todos os que se preocupam com o assunto. "Babies for Burning" (bebês para queimar, editado pela Serpentine Press, de Londres) não é um ensaio sobre o aborto, mas um trabalho jornalístico sobre o último elo de uma cadeia: o destino final dos fetos que anualmente são retirados de ventres que não desejam ou não podem ter filhos ou "aquele filho".
No caso da Inglaterra, já existe uma lei, o "Abortion Act", de 1967, que permite a interrupção do processo de gravidez pela eliminação mecânica. Os autores souberam, por meio de informações esparsas, que a indústria do aborto, como qualquer indústria moderna, tinha uma linha de subprodutos: a venda de fetos humanos para as fábricas de cosméticos.
Durante a Segunda Guerra, os nazistas também exploraram esse ramo do negócio: matavam judeus aos milhões e aproveitavam a pele e a escassa gordura das vítimas para uma linha de subprodutos que iam de bolsas feitas de pele humana a sabões que lavavam os uniformes do Exército do 3º Reich.
Os ingleses não chegam a ser famosos pelas bolsas que fabricam, mas pelo chá e pelos sabonetes -os melhores do mundo. Um "english soap" sempre me causou pasmo pela maciez, a consistência da espuma, a sensação de limpeza que dá a pele. Não podia suspeitar que tanto requinte pudesse ter -em alguns deles- as proteínas que só se encontram na carne -e carne humana por sinal.
Desde que li o livro, cortei drasticamente dos meus hábitos de higiene o uso dos bons e estimulantes sabonetes ingleses. Aderi ao sabão de coco, honestamente subdesenvolvido, com cheiro de praia do Nordeste e eficácia múltipla, na cozinha ou no toucador. Contam os jornalistas: "Quando nos encontramos em seu consultório, o ginecologista pediu à sua secretária que saísse da sala. Sentou-se ao lado de Litchfield, o que melhorou a gravação, pois o microfone estava dentro da sua maleta.
O médico mostrou uma carta: - "Este é um aviso do Ministério da Saúde", disse, com cara de enfado. "As autoridades obrigam a incineração dos fetos... não devemos vendê-los para nada... nem mesmo para a pesquisa cientifica... Este é o problema...." - "Mas eu sei que o senhor vende fetos para uma fábrica de cosméticos e... e estou interessado em fazer uma oferta... também quero comprá-los para a minha indústria..." - "Eu quero colaborar com o senhor, mas há problemas... Temos de observar a lei...
As pessoas que moram nas vizinhanças estão se queixando do cheiro de carne humana queimada que sai do nosso incinerador. Dizem que cheira como um campo de extermínio nazista durante a guerra." E continuou: "Oficialmente, não sei o que se passa com os fetos. Eles são preparados para serem incinerados e depois desaparecem. Não sei o que acontece com eles. Desaparecem. É tudo." - "Por quanto o senhor está vendendo?" - "Bem, tenho bebês muito grandes. É uma pena jogá-los no incinerador. Há uso melhor para eles. Fazemos muitos abortos tardios, somos especialistas nisso.
Faço abortos que outros médicos não fazem. Fetos de sete meses. A lei estipula que o aborto pode ser feito quando o feto tem até 28 semanas. É o limite legal. Se a mãe está pronta para correr o risco, eu estou pronto para fazer a curetagem. Muitos dos bebês que tiro já estão totalmente formados e vivem um pouco antes de serem mortos.
Houve uma manhã em que havia quatro deles, um ao lado do outro, chorando como desesperados. Era uma pena jogá-los no incinerador porque tinham muita gordura que poderia ser comercializada. Se tivessem sido colocadas numa incubadeira poderiam sobreviver mas isso aqui não é berçário.
Não sou uma pessoa cruel, mas realista. Sou pago para livrar uma mulher de um bebê indesejado e não estaria desempenhando meu oficio se deixasse um bebê viver. E eles vivem, apesar disso, meia hora depois da curetagem. Tenho tido problemas com as enfermeiras, algumas desmaiam nos primeiros dias."
Carlos Heitor Cony - Folha de São Paulo - 11/04/2008
No texto a seguir, o psicanalista brasileiro Jorge Forbes dedica-se a pensar a psicanálise no século XXI, na sua validade e no modo como ela pode operar em uma sociedade radicalmente diferente daquela do tempo de Freud.
Psicanálise do homem desbussolado por Jorge Forbes
Os meios de comunicação eletrônicos trouxeram a rapidez da informação, mas, em contrapartida, pedem ao id do homem atual um tempo diferente de absorção, reflexão e preparo da análise crítica. Nessa nova subjetividade do mundo pós-moderno, o aforismo ganha renovada importância: Tá ligado? Aforismo é uma sentença que em poucas palavras se compreende. Nesta coluna, proponho um formato diferente ao leitor como maneira provocativa de percebermos como estamos sendo confrontados a frases sintéticas. Proponho alguns aforismos sobre as mudanças necessárias a uma Psicanálise do Século XXI. Informações de relevância, porém concisas, o que obriga a cada um por de si, ao completá-las.

O texto a seguir é uma breve explicação psicanalítica dos sonhos.
"Não é o estudo das divagações, quando o doente se sujeita à regras psicanalíticas, o único
recurso técnico para sondagem do inconsciente. Ao mesmo escopo servem dois outros processos:
a interpretação de sonhos e o estudo dos lapsos e atos casuais. (...)
A interpretação de sonhos é na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente, a base mais segura da
psicanálise. É campo onde cada trabalhador pode por si mesmo chegar a adquirir convicção própria, como atingir
maiores aperfeiçoamentos. Quando me perguntam como pode uma pessoa fazer-se psicanalista, respondo que é
pelo estudo dos próprios sonhos. (...).
Não se esqueçam de que se nossas elaborações oníricas noturnas mostram de um lado a
maior semelhança externa e o mais íntimo parentesco com as criações da alienação mental, são,
de outro lado, compatíveis com a mais perfeita saúde na vida desperta. Não é nenhum paradoxo
afirmar que quem fica admirado ante essas alucinações, delírios ou mudanças de caráter que
podemos chamar `normais’, sem procurar explicá-los, não tem a menor probabilidade de
compreender, senão como qualquer leigo, as formações anormais dos estados psíquicos
patológicos. E entre esses leigos os ouvintes podem contar atualmente, sem receio, quase todos
os psiquiatras.
Acompanhem-me agora numa rápida excursão pelo campo dos problemas do sonho.
Quando acordados, costumamos tratar os sonhos com o mesmo desdém com que os doentes
rejeitam as idéias soltas despertadas pelo psicanalista. Desprezamo-los, olvidando-os em geral
rápida e completamente. O nosso descaso funda-se no caráter exótico apresentado mesmo pelos
sonhos que possuem clareza e nexo, e sobre a evidente absurdez e insensatez dos demais; nossa
repulsa explica-se pelas tendências imorais e menos pudicas que se patenteiam em muitos deles. (...)
Em primeiro lugar, nem todos os sonhos são estranhos, incompreensíveis e confusos para
a pessoa que sonhou. Examinando os sonhos de criancinhas, desde um ano e meio de idade,
verificarão que eles são extremamente simples e de fácil explicação. A criancinha sonha sempre
com a realização de desejos que o dia anterior lhe trouxe e que ela não satisfez. Não há
necessidade de arte divinatória para encontrar solução tão simples; basta saber o que se passou
com a criança na véspera (`dia do sonho’). Estaria certamente resolvido, e de modo satisfatório, o
enigma do sonho, se o do adulto não fosse nada mais que o da criancinha: realização de desejos
trazidos pelo dia do sonho. E o é de fato. As dificuldades que esta solução apresenta removem-se
uma a uma, mediante a análise minuciosa dos sonhos.
A primeira objeção e a mais importante é a de que os sonhos dos adultos via de regra têm
um conteúdo ininteligível, sem nenhuma semelhança com a satisfação de desejos. Resposta:
estes sonhos estão distorcidos, o processo psíquico correspondente teria originariamente uma
expressão verbal muito diversa. O conteúdo manifesto do sonho, recordado vagamente de manhã
e que, não obstante a espontaneidade aparente, se exprime em palavras com esforço, deve ser
diferenciado dos pensamentos latentes do sonho que se têm de admitir como existentes no
inconsciente. Esta deformação possui mecanismo idêntico ao que já conhecemos desde quando
examinamos a gênese dos sintomas histéricos; e é uma prova da participação da mesma interação
de forças mentais tanto na formação dos sonhos como na dos sintomas. O conteúdo manifesto do
sonho é o substituto deformado para os pensamentos inconscientes do sonho. Esta deformação é
obra das forças defensivas do ego, isto é, das resistências que na vigília impedem, de modo geral,
a passagem para a consciência, dos desejos reprimidos do inconsciente; enfraquecidas durante o
sono, estas resistências ainda são suficientemente fortes para só os tolerar disfarçados. Quem
sonha, portanto, reconhece tão mal o sentido de seus sonhos, como o histérico as correlações e a
significação de seus sintomas.
De que há pensamentos latentes do sonho e que entre eles e o conteúdo manifesto existe
de fato o nexo aludido, os presentes se convencerão pela análise de sonhos, cuja técnica se
confunde com a da psicanálise. Pondo de lado a aparente conexão dos elementos do sonho
manifesto, procurarão os senhores evocar idéias por livre associação, partindo de cada um desses
elementos e observando as regras da prática psicanalítica. De posse deste material chegarão aos
pensamentos latentes do sonho com a mesma perfeição com que conseguiram surpreender no
doente o complexo oculto, por meio das idéias sugeridas pelas associações livres a partir dos
sintomas e lembranças. Pelos pensamentos latentes do sonho, descobertos desse modo, pode-se
ver sem mais nada como é justo equiparar o sonho dos adultos ao das crianças. O que agora,
como verdadeiro sentido do sonho, substitui o seu conteúdo manifesto - e isto é sempre
claramente compreensível - liga-se às impressões da véspera e se patenteia como a realização de
um desejo não-satisfeito. O sonho manifesto que conhecem no adulto graças à recordação pode
então ser descrito como uma realização velada de desejos reprimidos.
Podem agora os ouvintes, por uma espécie de trabalho sintético, examinar o processo
mediante o qual os pensamentos inconscientes do sonho se disfarçam no conteúdo manifesto.
Esse processo, que denominamos `elaboração onírica’, é digno de nosso maior interesse teórico,
porque em nenhuma outra circunstância poderíamos estudar melhor do que nele os processos
psíquicos, não-suspeitados, que se passam no inconsciente, ou, mais exatamente, entre dois
sistemas psíquicos distintos, como consciente e inconsciente. Entre tais processos psíquicos
recentemente descobertos ressaltam notavelmente o da condensação e o do deslocamento. A
elaboração onírica é um caso especial da influência recíproca de agrupamentos mentais diversos,
isto é, o resultado da divisão psíquica, e parece essencialmente idêntico ao trabalho de
deformação que transforma em sintomas os complexos cuja repressão fracassou.
Pela análise dos sonhos descobrirão os senhores ainda mais, com surpresa, porém do
modo mais convincente possível, o papel importantíssimo e nunca imaginado que os fatos e
impressões da tenra infância exercem no desenvolvimento do homem. Na vida onírica a criança
prolonga, por assim dizer, sua existência no homem, conservando todas as peculiaridades e
aspirações, mesmo as que se tornam mais tarde inúteis. Com força irresistível apresentar-se-lhe-ão os processos de desenvolvimento, repressões, sublimações e formações reativas, de onde
saiu, da criança com tão diferentes disposições, o chamado homem normal - esteio e em parte
vítima da civilização tão penosamente alcançada.
Quero ainda fazer notar que pela análise de sonhos também pudemos descobrir que o
inconsciente se serve, especialmente para a representação de complexos sexuais, de certo
simbolismo, em parte variável individualmente e em parte tipicamente fixo, que parece coincidir
com o que conjecturamos por detrás dos nossos mitos e lendas. Não seria impossível que essas
últimas criações populares recebessem, portanto, do sonho, a sua explicação.
Impende-nos adverti-los finalmente de que não se deixem desorientar pela objeção de que
aparecimento de pesadelos contradiz o nosso modo de entender o sonho como satisfação de
desejos. Além de que é necessário interpretar os pesadelos antes de sobre eles poder firmar
qualquer juízo, pode dizer-se de modo geral que a ansiedade que os acompanha não depende
assim tão simplesmente do conteúdo oniríco, como muitos imaginam por ignorar as condições da
ansiedade neurótica. A ansiedade é uma das reações do ego contra desejos reprimidos violentos,
e daí perfeitamente explicável a presença dela no sonho, quando a elaboração deste se pôs
excessivamente a serviço da satisfação daqueles desejos reprimidos.
Como vêem, o estudo dos sonhos já estaria em si justificado, pelo fato de que proporciona
conclusões sobre coisas de que por outros meios dificilmente chegaríamos a ter noção. Foi todavia
no decorrer do tratamento psicanalítico dos neuróticos que chegamos até ele. Pelo que até agora
dissemos podem compreender facilmente que a interpretação de sonhos, quando não a estorvam
em excesso as resistências do doente, leva ao conhecimento dos desejos ocultos e reprimidos,
bem como dos exemplos entretidos por este.
Extraído de “Cinco Lições de Psicanálise”, de Sigmund Freud