sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mc Lanche Infeliz Luiz Felipe Pondé


POBRE FAMÍLIA . Esmagada entre teorias sobre seu fim ou sua transformação em mera empresa que gera jovens consumidores e gestores de carreiras, a família se despedaça sob a bota da instrumentalização da vida. Perdoe-me o leitor por contaminar sua segunda-feira com palavras de horror. Sou obrigado a fazê-lo.
E mais. Pais atormentados por mudanças que desqualificam seu lugar de homens despencam num abismo de sensibilidades, no fundo indesejadas por suas parceiras. Mães espremidas pelas obrigações advindas da emancipação de sua condição de mulher, ameaçadas pela solidão de quem aposta demasiadamente nas propagandas de sucesso pessoal, no fundo apavoradas como sempre estiveram pela deformação de seus corpos diante do desejo ávido masculino por mulheres cada vez mais jovens. Homens e mulheres acuados pela imensa montanha de idealizações.
A dependência de especialistas em como educar filhos se torna mais aguda do que a dependência do sexo, do álcool ou do tabaco. Bom o tempo em que tudo que temíamos era a luxúria dos corpos que ardiam na escuridão dos quartos. A insegurança de cada passo mostra seus dentes diante dos filhos que crescem ao sabor de um mundo que se torna cada vez mais exigente e, por isso mesmo, mais cruel. A associação entre demanda de sucesso e crueldade parece escapar aos especialistas na vida bem sucedida.
O fracasso é o pai do humano que se quer humano. Eis o maior de todos os impasses. Alguns praticantes das ciências parecem analfabetos tolos diante desta máxima e, por isso, repetem alegres suas crenças bobas nos instrumentos do progresso. Enganam-se, em sua infância intelectual, quando pensam que nós, céticos desta Babel, amamos o sofrimento, quando na realidade sabemos apenas de sua inevitabilidade como condição da humanização. É uma ciência da inevitabilidade do sofrimento que falta a estas almas superficiais que ainda chafurdam nas crenças do século 18.
Esses chatos, montados em suas análises jurídicas, sociológicas e psicológicas, atormentam a família, que fica perdida em meio a uma ciência moralista que tem como uma de suas taras a intenção de provar a incompetência dos homens e das mulheres na labuta com suas crias. Agora esses chatos decidiram que vão mandar nas compras de sucrilhos e nas idas ao McDonald's.
Tomados pelo furor da lei, esses puritanos querem ensinar padre-nosso ao vigário, assumindo que os pais precisam de tutela na hora de comprar comida para seus filhos. Nada de bonequinhos, nada de brindes, apenas embalagens feias como caixotes soviéticos. Daqui a pouco, vão proibir mulheres bonitas nas propagandas e as gotas de cerveja que escorrem por suas saias curtas. Riscarão do mapa carros que desfilam homens charmosos. Uma verdadeira pedagogia do horror como higiene do bem.
O problema com este higienismo é que ele pensa combater em nome da liberdade, mas, na realidade, restringe ainda mais a liberdade, esmagando-a em nome desta senhora horrorosa que se chama "cidadania". Esta senhora, que tende ao desequilíbrio quando se faz cheia de vontades, nasceu sob o sangue da revolução francesa, e dela guarda seu gosto pela humilhação. Deve, portanto, permanecer sob "medicação", porque detesta o homem comum e sua miséria cotidiana que carrega nossa identidade mais íntima. Sob a égide da defesa do bem comum, ela, quando investida da condição de rainha louca da casa, amplia o sentido dessa "coisa pública" elevando-a a categoria de uma geometria moral da intolerância.
Deixe-nos em paz com nossos filhos mal educados, com maus hábitos alimentícios, viciados em televisão e computador, aos berros para ganhar o McLanche Feliz. A negação da liberdade vem acompanhada da afirmação do que é a liberdade certa. Liberdade sempre pressupõe o desgosto e uma certa desordem indesejável. Daqui a pouco, vão dizer que não podemos comprar chocolates com personagens infantis (como se o gosto do chocolate para uma criança fosse "apenas o gosto do chocolate").
Em seguida, obrigarão nossas crianças a ler livros com meninas beijando meninas e histórias onde Jesus era africano. Criarão aulas onde meninos aprendam a colocar camisinha em bananas com a boca, afinal a igualdade entre os sexos deve passar pelo esmagamento da privacidade suja dos preconceitos, como se a vida fosse possível sem sombras, sob o calor sufocante da luz.

Folha de São Paulo – 07-09-2009 

A IMAGEM DO CACHORRO MORDERÁ NO FUTURO? Vilém Flusser

IRIS, março de 1983

Nos dias 2 a 5 de dezembro reuniram-se, nessa cidade dos albigenses e de Toulouse-Lautrec, engenheiros, artistas, economistas, sociólogos e pensadores, para discutirem o "futuro da cultura". Por mais divergentes que tenham sido os pontos de vista, havia consenso quanto a um dos aspectos mais fundamentais do problema: a cultura do futuro será cultura da imagem.
Quanto mais progrediam as discussões, tanto mais a reflexão se ia concentrando sobre a função da imagem na sociedade pós-industrial do futuro. Isto foi captado pela seguinte pergunta: "A imagem do cachorro morderá no futuro?". Para ilustrar tal pergunta, foram exibidos hologramas, jogos eletrônicos, fotografias eletrônicas sintetizáveis pelos receptores, e imagens de objetos "impossíveis" projetadas por computadores.
Pretendo, neste artigo, considerar apenas um dos parâmetros de tal revolução das imagens pela qual estamos passando: o da transferência do interesse existencial do mundo concreto para a imagem. E restringirei ainda mais as considerações, ao concentrá-las sobre fotografias.
Enquanto as fotografias ainda não forem eletromagnetizadas, serão elas superfícies imóveis e mudas, cujo suporte material é papel ou substância comparável. Nessa sua provisória materialidade as fotografias se assemelham às imagens tradicionais, cujo suporte é parede de caverna, de túmulo etrusco, vidro de janela, ou tela.
Mas a fotografia se distingue das imagens tradicionais por duas características: (1) foi produzida por aparelho, e (2) é multiplicável. É esta segunda diferença que interessa para as considerações aqui propostas. Porque tem consequências profundas para a futura maneira de ser do homem e da sociedade.
As fotografias são superfícies que podem ser transferidas de um suporte para outro, Como que descoladas, (decalcomanias). A superfície não assenta firmemente sobre o suporte, como o é o caso das pinturas, (de parede de caverna ou de óleo sobre tela). É como se a superfície fotográfica desprezasse o seu suporte, e estivesse livre de mudar de suporte: pode passar para jornal, para revista, para cartaz, para lata de conserva. Pois é o desprezo do suporte material que é a característica do mundo futuro das imagens.
A superfície da fotografia é imagem. Isto é: sistema de símbolos bi-dimensionais que significam cenas. Isto é o "valor" de toda imagem: que serve de mapa para a orientação no mundo das cenas. De modelo estético, ético e epistemológico de tal mundo. Que "informa". Pois nas imagens tradicionais a informação está impregnada firmemente no objeto que a suporta. Por isto as imagens tradicionais têm valor enquanto objetos. Na fotografia a informação despreza o seu suporte, e por isto a fotografia tem valor desprezível enquanto objeto. O valor está, nela, concentrado sobre a informação mesma.
O aspecto "objetivo" da fotografia não interessa: o que interessa é seu aspecto "informativo". Querer possuir fotografia de uma cena de guerra não tem sentido: sentido tem querer ver a fotografia para ter informação quanto ao evento. O conceito de "propriedade" se esvazia no terreno da fotografia, e com isto se esvaziam os conceitos de "distribuição justa" e de "produção" de propriedade. Sociedade "informática" será sociedade, na qual tais conceitos terão sido superados.
No entanto, tal decadência do objeto e emergência da informação enquanto "sede do valor" não capta, por si só, a revolução pela qual estamos passando. Retomemos a fotografia da cena de guerra como exemplo. Como toda imagem, a fotografia "significa" a cena, isto é: substitui-se simbolicamente por ela. De modo que quem souber decifrar a fotografia poderá ver "através" dela o seu significado. Parece, pois, que há relação unívoca entre o universo das fotografias e o universo das cenas do "mundo lá fora": o universo das fotografias é "significante", o mundo das cenas "significado".
No entanto, a relação passou a ser equívoca: a fotografia da cena de guerra pode passar a ser o "significado" do evento fotografado. O evento pode ter acontecido, a fim de ser fotografado. E, mesmo se isto não for o caso, mesmo se o evento tiver acontecido independentemente do ato fotográfico, a fotografia pode passar a funcionar enquanto "significado": para quem vê jornal da manhã, a fotografia da cena da guerra passa a ser o "significado" da guerra, e o evento lá fora passa a ser mero pretexto para a fotografia. Em outros termos: para o receptor da imagem o vetor de significação se inverteu, e o universo das imagens passa a ser a "realidade".
Sociedade "informática" será sociedade para a qual os valores e a realidade, o "dever ser" e o "ser", residirão no universo das imagens. Sociedade que vivenciará, sentirá, se emocionará, pensará, sofrerá e agirá em função dos filmes, da TV, dos vídeos, dos jogos eletrônicos, e da fotografia. Em tal sociedade, o poder se transferirá dos "proprietários" de objetos, (matérias-primas, energias, maquinas), para os detentores e produtores de informação, para os "programadores". "Imperialismo informático e pós-industrial" será isto. E o Japão, essa sociedade carente de energia e matérias-primas, é desde já exemplo disto.
A decadência do mundo "objetivo" enquanto sede do valor e do real, e a emergência do mundo simbólico enquanto centro do interesse existencial, é observável, desde já, no terreno da fotografia. É terreno no qual o poder está sendo detido pelos programadores de aparelhos. E trata-se de poder hierarquizado e desumanizado.
O fotógrafo exerce poder sobre o receptor da sua mensagem, porque lhe impõe determinado modelo de vivência, de valor e de conhecimento. A câmara exerce poder sobre o fotógrafo, ao estruturar seu gesto de fotografar, e ao limitar sua ação às possibilidades programadas no aparelho. A indústria fotográfica exerce poder sobre a câmara, ao programá-la. O aparelho industrial, administrativo, político, econômico e ideológico exerce poder sobre a indústria fotográfica, ao programá-la. E todos estes aparelhos gigantescos são, por sua vez, programados para programarem. Se analisarmos, cautelosamente, não importa que fotografia individual, poderemos, desde já, verificar como funcionará a cultura das imagens.
E isto nos permite a responder afirmativamente à pergunta de Albi: "a imagem do cachorro morderá no futuro?". Morderá, no sentido de: modelará a ação, e a experiência mais íntima, do homem futuro.

domingo, 23 de agosto de 2015

Atividades Terceiro Ano Terceiro Bimestre



As atividades devem ser respondidas em folha de papel almaço, à caneta azul ou preta.
As atividades da apostila devem ser respondidas na folha de almaço junto com as demais.
Apresentar as respostas em ordem de atividade.
Atrasos terão desconto de nota.

Atividade 1
Caderno do aluno vol. 1, pág. 61 e 62, Leitura e Análise de Texto. Responder a pergunta da pág. 62; pág. 79, completar a tabela.
Atividade 2
Caderno do aluno vol. 1, págs. 87 a 93, Leitura e Análise de Texto. Responder as questões das páginas 92 e 93.
Atividade 3
Livro Filosofando, página 65. Leitura do texto e repostas das questões 1,2 e 3.
Atividade 4
Livro Filosofando, página 99. Leitura do texto e respostas das questões 1, 2, 3 e 4.
Atividade 5
Livro Filosofando, Leitura do capítulo 8 e atividades da página 100: responder às questões 1 a 5.
Atividade 6  
Livro Filosofando, Leitura do capítulo 8 e atividades da página 100: responder às questões 7 e 8.
Atividade 7
Livro Filosofando, Leitura do capítulo 8 e atividades da página 100: responder às questões 9 e 10.
Atividade 8
Livro Filosofando, página 262. Leitura do texto e resposta das questões 1, 2 e 3.
Atividade 9
A partir da atividade interdisciplinar de filosofia e sociologia, relate o programa de TV assistido e explique com exemplos a ideologia transmitida pela atração.
Atividade 10
Assista no Youtube o filme “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, e relacione os fatos narrados e os personagens aos conceitos de sociedade de classes, luta de classes, modos de produção, alienação do trabalho, reificação, fetichismo da mercadoria, mais-valia e ideologia.

Atividades do Segundo Ano, Terceiro Bimestre



As atividades devem ser respondidas em folha de papel almaço, à caneta azul ou preta.
As atividades da apostila devem ser respondidas na folha de almaço junto com as demais.
Apresentar as respostas em ordem de atividade.
Atrasos terão desconto de nota.
Atividade 1
Responder as questões do texto Os Candidatos são todos iguais
Atividade 2
Responder as questões do texto A Liberdade segundo Sartre
Atividade 3
Caderno do Aluno volume 2 páginas 5 e 6.
Atividade 4
Caderno do Aluno volume 2 páginas 19, 20, 21 e 22.
Atividade 5
Caderno do Aluno volume 2 páginas 25 e 26.
Atividade 6  
Livro Filosofando, Leitura do texto da página 226: responder às questões propostas.
Atividade 7
Livro Filosofando, Leitura do texto da página 260: responder às questões propostas.
Atividade 8
Livro Filosofando, leitura do capítulo 20 e responder às atividades 5, 6 e 8.
Atividade 9
Responda as atividades do texto maquiavel em duas licoes
Atividade 10
Leia o texto "As particularidades do Racismo no Brasil", do Caderno do Aluno, volume 2, página 15 e responda:  questoes sobre o texto

Maquiavel em duas lições

por Renato Janine Ribeiro

Não há filósofo mais mal-entendido do que Maquiavel. E isso não porque tenha escrito coisa difícil de compreender; seu livro mais conhecido, O príncipe, é incomparavelmente mais fácil de se ler do que qualquer obra de Kant ou Hegel. Mas, se entendemos tudo o que ele diz, não é simples compreender o que ele quis dizer. Durante quatrocentos anos, os especialistas o leram ao pé da letra, acreditando que defendia o poder a todo custo, inclusive o da supressão da moralidade; nenhum scholar hoje partilha essa opinião, ainda que continue dominante entre quem nunca leu Maquiavel. Mas uma coisa sempre foi certa: não é dele a frase segundo a qual os fins justificam os meios.

A grande questão d’O príncipe é: existem repúblicas e monarquias, e entre as monarquias há as antigas e as novas. O livro discute somente as novas. Porque, quando o poder é antigo, ou quando foi conferido pelo povo, as pessoas não veem muito problema em obedecer. Mas, se o poder foi conquistado há pouco, falta-lhe o que chamaríamos de legitimidade: a disposição mental dos súditos de respeitar o governante. E isso se agrava quando o governo novo foi instaurado não com armas próprias, mas alheias.

Por que esse caso raro – não na Itália de 1500, mas no resto do mundo sim – se torna assim decisivo? Porque nele se capta a essência da Política – sua capacidade de criar, quase do nada, a legitimidade, a capacidade que tenha o governante de construir, quase do nada, a obediência. Não é pela força, porque o príncipe em questão não dispõe de armas suas. É pelas ações, pela palavra, por uma persuasão escorada em alguma violência do governante, que acima de tudo precisa ser bem usada. Ao contrário do que se imagina, a mera força de nada serve. O que é necessário é o que vai além da força bruta ou física e se chama poder.

Se Maquiavel começa o livro especificando seu campo de interesse – o regime não republicano, mas monárquico; que não é antigo, mas novo; que não foi obtido por armas próprias, mas alheias – ele praticamente o conclui com uma distinção que mais ou menos se sobrepõe a esta. No penúltimo capítulo d’O príncipe, afirma que dos resultados de nossas ações pode-se dizer que metade vem da fortuna (mais ou menos, o acaso, a sorte, boa ou má), metade da virtù. Para ele, essa palavra não significa virtude moral, e por isso os estudiosos preferem citá-la em italiano, a fim de preservar o sabor maquiaveliano. A virtù seria a excelência do príncipe, do condottiere, ao saber como enfeixar em suas mãos os fios descosidos do destino. Tem virtù quem sabe, em uma situação adversa ou apenas devida à sorte, tornar-se senhor. Vejam o exemplo que dá Maquiavel: tempestades arrasam pontes e estradas, eis a fortuna; mas, depois, o homem refaz o que foi destruído, tornando- -o mais resistente ao azar, eis a virtù.

O que faz então o príncipe, não digo o ameaçado pela má sorte, mas o que deve seu status apenas à boa sorte, sem mérito próprio, sem forças armadas suas que o defendam? Ele deve ser habilíssimo. Cada gesto seu precisa estar dirigido à construção de um poder que impressione. O grande exemplo de Maquiavel está em Cesare Borgia, quando esse príncipe novo por excelência – que deve sua posição apenas à sorte de ser filho de papa – ganha a Romagna, então assolada por bandidos. Nomeia um preposto, Ramiro dell’Orco, para que acabe com eles, o que Ramiro faz com energia e crueldade. A região está pacificada, mas Cesare ficou com fama ruim. Para sanar o entrave, Cesare manda matar, de forma cruel, seu próprio delegado, Ramiro. O corpo dele, ensanguentado, no centro da capital da Romagna, basta para mostrar que o príncipe pode ser terrível e bom. Um gesto teatral fortalece Cesare Borgia.

Antes sortudo, agora ele tem poder próprio.

Atividade: elabore o resumo do texto acima em 15 linhas. Use suas palavras.
  

Leia Mais:http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,virtu-e-fortuna,1527392
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Questões sobre o texto "A particularidade do racismo no Brasil"

O texto encontra-se na apostila volume 2 , na página 15.
Responda:

1- Há uma ideia comum de que no Brasil não existe racismo. Isso é verdade? Cite exemplos para contrariar ou defender esta ideia comum.
2- Explique o que significa paisagem social.
3- Por que deveriam existir políticas públicas específicas para as populações negras no Brasil? Explique de acordo com o texto.

Os candidatos são todos iguais

por Frei Betto

Época de eleição é época de emoção. A razão entra em férias, a sensibilidade fica à flor da pele. Em família e no trabalho, todos manifestam as suas opiniões.

O tom varia do palavrão a desqualificar toda a árvore genealógica do candidato à veneração acrítica de quem o julga perfeito. Marido briga com a mulher, pai com o filho, amigo com amigo, cada um convencido de que possui a melhor análise sobre os candidatos...

Um terceiro grupo insiste em se manter indiferente ao período eleitoral. Todos os candidatos são considerados corruptos, mentirosos, aproveitadores ou demagogos (ou tudo ao mesmo tempo).

Mas não há saída: estamos todos sujeitos ao Estado. Ficar indiferente é passar cheque em branco, assinado e de valor ilimitado, ao candidato vitorioso. Governo e Estado são indiferentes à nossa indiferença, aos nossos protestos individuais.

É compreensível uma pessoa não gostar de ópera, de jiló ou da cor marrom. E mesmo de política. Impossível é ignorar que todos os aspectos de nossa existência, do primeiro respiro ao último suspiro, têm a ver com política.

A classe social em que cada um de nós nasceu decorre da política vigente no país. Houvesse menos injustiça e mais distribuição da riqueza, ninguém nasceria entre a miséria e a pobreza. Como nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que veio a este mundo, somos todos filhos da loteria biológica. O que não deveria ser considerado privilégio por quem nasceu nas classes média e rica, e sim dívida social para com aqueles que não tiveram a mesma sorte.

Somos ministeriados do nascimento à morte. Ao nascer, o registro segue para o Ministério da Justiça. Vacinados, ao da Saúde; ao ingressar na escola, ao da Educação; ao arranjar emprego, ao do Trabalho; ao tirar habilitação, ao das Cidades; ao aposentar-se, ao da Previdência Social; ao morrer, retorna-se ao Ministério da Justiça. E nossas condições de vida, como renda e alimentação, dependem dos ministérios da Fazenda e do Planejamento.

Em tudo há política. Para o bem ou para o mal.

O Brasil é o resultado das eleições de outubro. Para melhor ou para pior. E os que o governam são escolhidos pelo voto de cada eleitor.

Faça como o Estado: deixe de lado a emoção e pense com a razão. As instituições públicas são movidas por políticos e pessoas indicadas por eles. Todos os funcionários são nossos empregados. A nós devem prestar contas. Temos o direito de cobrar, exigir, reivindicar, e eles o dever de responder às nossas expectativas.

A autoridade é a sociedade civil. Exerça-a. Não dê seu voto a corruptos nem se deixe enganar pela propaganda eleitoral. Vote no futuro melhor de seu município. Vote na justiça social, na qualidade de vida da população, na cidadania plena.

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, 67, o Frei Betto, frade dominicano, é escritor, assessor de movimentos sociais e autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros


Responda:

1- Explique com suas palavras o assunto do texto.
2- Para o texto "em tudo há política". Como o autor justifica essa afirmação?
3- Como os eleitores se comportam em épocas de eleição?
4- O que significa ser ministeriado?
5- Seria uma boa ideia não se deixar ser ministeriado? Por que?
6- Perante a política, o indivíduo perde sua liberdade? Explique sua resposta utilizando os argumentos do texto.

A Liberdade segundo Sartre


"O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo. (...)
"De início, o homem é um projeto que se vive a si mesmo subjetivamente ao invés de musgo, podridão ou couve-flor; nada existe antes desse projeto; não há nenhuma inteligibilidade no céu, e o homem será apenas o que ele projetou ser.
"(...) Porém, se realmente a existência precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é, de submetê-lo à responsabilidade total de sua existência. Assim, quando dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens.
"O existencialista, pelo contrário, pensa que é extremamente incômodo que Deus não exista, pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade de encontrar valores num céu inteligível; não pode mais existir nenhum bem a priori, já que não existe uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em nenhum lugar que o bem existe, que devemos ser honestos, que não devemos mentir, já que nos colocamos precisamente num plano em que só existem homens. Dostoievski escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. Para começar, não encontra desculpas. Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. Assim, não teremos nem atrás de nós, nem na nossa frente, no reino luminoso dos valores, nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz."
Trechos do discurso de Jean-Paul Sartre “O Existencialismo é um Humanismo”

Responda:

1- Qual o significado da palavra "existencialismo" no texto?
2- Como podemos relacionar liberdade com responsabilidade?
3- Quais as diferenças entre o homem, um musgo e a couve-flor?
4- Para o autor, é importante que Deus não exista? Explique.